segunda-feira, 7 de maio de 2012

Fichamento - Autoapresentação e gerenciamento de impressões em redes sociais digitais 3/3

O’HARA, Kieron; TUFFIELD, Mischa M.; SHADBOLT, Nigel. Lifelogging: Privacy and empowerment with Memories for Life. Identity in the Information Society, v.1, n. 1 2008 (p.155- 172).


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Por Felippe Thomaz, Fernanda Braga e Pedro Cordier



Sobre os autores:
KIERON O’HARA é pesquisador em Eletrônica e Ciência da Computação na Universidade de Southampton, no Reino Unido. Seu estudo dialoga com as áreas da filosofia, sociologia, políticas de tecnologia, particularmente o World Wide Web e Semantic Web.

MISCHA M. TUFFIELD é PhD pela Universidade de Southampton, sob a orientação de Nigel Shadbolt. Seus interesses na academia estão voltados à informação pessoal, propriedade de dados, privacidade e Semantic Web. Tuffield também é membro do W3C’s RDF Working Group.

NIGEL SHADBOLT é professor de Inteligência Artificial na Universidade de Southampton, além de ser diretor da Web Science Trust e da Web Foundation, organizações voltadas à promoção dos impactos positivos da Web sobre a sociedade.

Objetivos do capítulo: Discorre sobre a prática do lifelogging – coleção de informações acerca do comportamento e da vida de indivíduos no âmbito da internet – em uma abordagem que contempla aspectos problemáticos e potencializadores da exposição de informações pessoais ao círculo público da Web. Os autores observam algumas ferramentas técnicas discutindo-as sob a perspectiva da privacidade e identidade, considerando ambas as questões como intrigantes e problemáticas no contexto digital.

Argumentação Central: Os autores consideram que, em geral, as abordagens acerca da privacidade na web estão dissipadas e apontam para o engano destas pesquisas em presumir que as informações adquiridas são para uso privado. No caso, os pesquisadores de Southampton partem de uma perspectiva onde tais informações têm função pública e serão, neste sentido, deliberadamente disponibilizadas em domínio público.

Tópico 1 - Introduction: A discussão parte inicialmente de uma abordagem relacionada à memória e à estocagem de informações em suporte digital. Devido à maior capacidade das máquinas de armazenar dados, a relação com a memória pessoal é modificada. Não há mais necessidade de selecionar o que deverá ser estocado, uma vez que o aumento desta capacidade permite grandes quantidades de dados (em imagem, texto, som e demais extensões). Neste sentido, é gerada a necessidade de um gerenciamento de informação pessoal (PIM – Personal Information Management). A United Kingdom Computer Research Committee enquadrou a problemática de gerenciamento de “dados da vida” sob a alcunha de “Memories for Life”, o que, segundo eles, é um grand challenge para a pesquisa em computação.
Neste ínterim, emerge o conceito de lifelogging, que abarca a ideia de armazenamento indiscriminado de informações digitais que remetem às preferências e condutas do indivíduo. Segundo os autores, esta prática divide-se em duas vertentes: a) passiva, através dos tipos produtos adquiridos e b) ativa, o indivíduo dispõe de recurso e sensores através dos quais irá registrar e criar uma imagem de sua própria vida. É válido considerar de antemão que tais informações serão reunidas conforme os interesses dos usuários. Dentre alguns exemplos de fontes de informação é possível citar e-mails enviados e recebidos, downloads de músicas, informações do web browser (histórico de navegação, favoritos, downloads etc.), EXIF data de fotografias e sensores biométricos. As informações geradas por comunidades tendem a crescer em importância devido à configuração da Web 2.0, marcada pela participação direta do usuário na estrutura da rede através da facilidade na criação de conteúdo. Outra fonte de informação ressaltada no texto é a geodata, dados de localização e rastreamento derivados da incorporação de GPS nos dispositivos móveis. Utilizando aplicativos em celulares, os lifeloggers podem fornecer dados posicionais e adicionar informações complementares, suprimindo as limitações técnicas dos sistemas de GPS.
Ao final da introdução, os autores abrem margem às discussões posteriores voltando a atenção ao propósito do lifelogging como variável conforme o usuário, podendo este, inclusive, não saber o motivo pelo qual armazena dados pessoais. Além disso, a prática de lifelogging corrobora o potencial do indivíduo em manter controle sobre a própria identidade, evidenciando ou omitindo alguns traços de sua personalidade – o que, posteriormente, no texto, será contemplado ao observar a possibilidade de edição das informações enviadas/armazenadas.


Tópico 2 – Lifelogging:
Segundo os autores, a prática de lifelogging não data de dias recentes. Ao citar o projeto LifeLog da DARPA (American Defense and Advanced Research Projects Agency), emerge a questão da “memória episódica” (episodic memory), refletida na intencionalidade do projeto do governo americano quando este se propõe a “traçar os ‘tópicos’ da vida de um indivíduo no tocante aos eventos, estados e relações” (p. 5). Uma ilustração clara é a organização de tais eventos em pontos determinados em uma timeline. O projeto LifeLog recebeu diversas críticas e foi cancelado em 2004, no entanto, há interesse militar e tecnológico na obtenção e armazenamento de informações pessoais.
Os autores ainda ressaltam outro projeto, MyLifeBits, da Microsoft, cuja a intencionalidade se volta ao exaustivo trabalho de digitalizar todos os documentos em todas as mídias. Iniciado em 2001, sob a tutela de Gordon Bell, o projeto foi pensado como um depósito de informações passíveis de consulta, busca e recuperação, assim como ferramentas para novas capturas.
Ainda, ressaltam os experimentos de Steve Mann, “o primeiro ciborgue do mundo”. Utilizando o EyeTap, uma prótese de memória visual, Mann transformou seu olho em uma câmera e seu corpo em um servidor da web, transformando seu campo de visão em gravações videográficas e disponibilizando-as na rede. Além de Mann, cita os experimentos de Jennifer Ringley e sua JenniCam, uma webcam registrando em totalidade os eventos em sua casa. As imagens foram exibidas na internet de forma bruta de 1996 a 2003[1]. Estas iniciativas apontam para uma roupagem experimental da prática de lifelog. Tais atividades são bem menos sutis do que as que serão descritas em outro momento no texto, como a utilização das redes sociais e o rastreamento por geodata. No entanto, os autores partem para a descrição das tecnologias da web semântica.

Tópico 3 – Semantic Web Technologies:
Neste ponto, a atenção se volta a uma breve descrição técnica da web semântica no intuito de compreender de que forma os dados podem ser recombinados na prática de lifelogging. A organização de informações heterogêneas em variáveis comuns a humanos e computadores, ou seja, a construção de uma “rede de dados” é o ideia base deste movimento colaborativo de extensão da web atual. Liderados pela W3C (World Wide Web Consortium), a web semântica requer conhecimento de RDF, SPARQL, URIs e FOAF (p. 7). Tal estrutura permite (e promove) o compartilhamento e o direcionamento de fontes de informação entre comunidades.

Tópico 4 - Services:
Segundo os autores, a quantidade de informação bruta coletada não infere diretamente na utilidade ou finalidade destes dados.  A estrutura ideal do lifelogging não deve ser somente da perspectiva das fontes de informação, mas dos serviços providos. Aqui, destaca-se a linguagem RDF como mediadora de interações entre fontes de informação e serviços. A exemplo, podemos observar os mecanismos de recomendação em lojas virtuais que, a partir das associações feitas pelo usuário, organiza uma série de sugestões de itens similares. Os autores, ligados à área da ciência da computação, apontam para algumas melhorias porvir neste sistema de busca. Dentre elas, citam a possibilidade de estas associações serem mais “finas”, relacionando as sugestões com as circunstâncias de navegação e a localização física do usuário. Ou seja, se o usuário ouve determinado tipo de música no carro e não o faz no ambiente de trabalho, as músicas sugeridas enquanto dirige são do gênero de sua preferência nesta circunstância específica.
Apontam ainda para os metadados como facilitadores da busca e recuperação de informações, sobretudo em multimídia. Além disso, apresentam a possibilidade de criação de uma espécie de avatar como mediador da interação do usuário com outros usuários no ambiente digital. Esta representação seria a interface entre o ator e o meio online. Por fim, ressalta a questão da telemedicina, através da provisão dos dados médicos do usuário (citando exemplos como GoogleHealth e PatientsLikeMe).

Tópico 5 – Non-solipsistic lifelogging:
Neste ponto, os autores apontam para a compreensão equivocada do lifelogging como prática individualista. Segundo eles, a ideia de reunir informações sobre si mesmo para posterior consulta é errônea, considerando, sobretudo, a configuração da Web 2.0 e das redes sociais. Tais estruturas levaram o usuário a repensar o compartilhamento de informações partindo da premissa de compartilhamento com os demais usuários (vídeos no Youtube e fotos no Flickr expostos no “mural” do Facebook, por exemplo). Neste sentido, a prática de lifelogging pode ser enriquecida através da integração ou do cruzamento de informações com os outros usuários da rede. Esta relação complexa entre o que é compartilhado ou omitido pelo usuário consiste no próprio “estilo de vida tecnológico” emergente nestes meios. A partir do momento que os “episódios” são compartilhados nas redes sociais o controle sobre estas informações se complexifica. Na página 12, eles afirmam que “a imagem do usuário emerge em um sentido mais social que introspectivo”, rejeitando a ideia de lifelogging como uma prática de cunho individualista e assumindo-a em um contexto amplo de conexões entre atores sociais no ambiente digital.

Tópico 6 – Privacy, Identity and Accountability – Privacy Concerns:
Devido à própria complexidade existente entre lifelogging e redes sociais, torna-se difícil precisar a trajetória das informações que circulam no âmbito social digital. As questões relacionadas à privacidade começam a emergir no texto, sob a alegação de evidência empírica da preferência de bloggers por leitores desconhecidos que pessoas em menor distância social (referenciam esta questão ao estudo de Sorapure, 2003).
Como premissa às preocupações acerca da privacidade, os autores se voltam à confiança e confiabilidade nas conexões causais da web, dividindo-as em duas classificações: a) Weberiana: relação de confiabilidade à confiança, default da web e da web semântica. Ou seja, o que deseja obter a confiança age, através de inúmeras ferramentas, para se apresentar confiável. A relação se constitui no intuito de minimizar os riscos. b) Durkheimiana: parte da confiança à confiabilidade. Considerando as pessoas como seres sociais, a questão está no convite para participar da comunidade e, a partir daí, desempenhar uma postura confiável. É a roupagem das redes sociais digitais, por exemplo, onde se adiciona um desconhecido como “amigo” e, só depois, uma relação de confiança/amizade se estabelece, estando esta também sujeita a uma postura de indiferença entre os participantes da interação. Os autores apontam para a emergência de uma “cultura da suspeita”, dado os riscos envolvidos no estabelecimento de laços de confiança e a ameaça à privacidade, sobretudo no lifelogging.
Ao realizarem uma releitura da obra de Allen (2008), os autores observam algumas preocupações na prática de lifelogging, a seguir: a) casos onde preservar a memória é algo danoso à imagem do indivíduo (fotos de um episódio vexatório circulando nas redes sociais, por exemplo); b) a contemplação do passado em uma perspectiva patológica, evidenciando uma preocupação com a questão da saúde mental. No entanto, a contraargumentação dos autores oferece outro olhar sobre o armazenamento de “dados da vida”, uma vez que estas informações detalhadas poderão fornecer um auxílio ao processo psicoterapêutico do indivíduo; c) a vigilância nociva a partir dos dados fornecidos é também um tópico que inquieta Allen, sobretudo no tocante ao acesso irrestrito do governo a tais informações e ao fato de que as ferramentas utilizadas para acessar informações sobre si são as mesmas no acesso a informações sobre os outros.
O posicionamento dos autores, no entanto, evidencia uma aproximação mais técnica a tais ferramentas de armazenamento, considerando-as como neutras. Se por um lado, as informações podem ser incriminatórias no momento em que evidenciam atividades que estariam omitidas em uma interação face-to-face e as sustenta no tempo (informações continuam on-line), por outro, são menos incriminatórias quando fornecem também o contexto e circunstância em que ocorreram tais ações. A prática de lifelogging, segundo eles, não implica necessariamente em um falseamento do comportamento, mas tais comportamentos provêm da relação com a privacidade. Ou seja, o lifelogging não reduz a expectativa de privacidade, mas a expectativa de privacidade dita as práticas de armazenamento de “dados da vida”. As inquietações acerca da maneira como o indivíduo se apresenta em relação à expectativa de privacidade no ambiente de interação é melhor discutida no tópico seguinte, Identidade.

Tópico 7 - Identity:
“O lifelog (aqui, cabendo o risco de traduzir enquanto “registro de vida”) para o lifelogger pode constituir a pessoal ‘real’” (p. 20). Partindo desta premissa, os autores consideram o lifelog como algo maior do que um simples aglomerado de dados e evidenciam estas informações como peças de um mosaico maior, a identidade como um constructo e não algo dado em “essência”. Neste sentido, o sujeito disponibiliza algumas informações no intuito de ser identificado pelo sistema, considerando o “lifelog como uma identidade plausível” (p. 21). As questões de privacidade emergem, pois, da relação entre o desejo de maximizar o fluxo de informações e o desejo de alto nível de proteção destas, para preservar a privacidade (uma relação que os próprios autores consideram “aparentemente contraditória”). Aqui cabe a distinção entre as informações do usuário que são “compartilháveis” e aquelas que “constituem alguém”, tidas como mais restritas.
Em seguida, há uma crítica à ideia simplista de que “somos nossas informações”. Considerando             a complexidade na constituição do self, a ideia de que um banco de dados contempla todas as nuances psicológicas e comportamentais do indivíduo é rebatida. O lifelog, segundo a proposta de O’Hara e demais autores, não pode ser pensado como a identidade em si, mas como um conjunto de elementos pelos quais o usuário se apresenta em diversos contextos (contemplando, obviamente, a possibilidade de edição das informações enviadas à rede). Com estes recursos, o lifelogger pode criar e sustentar outras personalidades para alcançar determinados objetivos no mundo on-line.
Posteriormente, é descrita tecnicamente o processo de criação de uma identidade digital no contexto da web semântica (p. 23). De maneira reduzida, o Semantic Logger produz uma fusão de dados dispersos em diversos ambientes da rede e os reúne em um único KB (knowledge base), fornecendo uma visão geral das informações pessoais publicadas na internet.

Tópico 8 – Accountability of the individual:
No presente tópico, os autores descrevem efeitos positivos do lifelogging, iniciando pela possibilidade de compensar representações do passado. Accountability, segundo Allen, consiste na expectativa ou requerimento em informar, explicar ou justificar determinada conduta, com a possibilidade de punição de acordo com a ação desempenhada. O lifelogger, neste viés, tem a disposição uma gama de ferramentas pelas quais poderá fornecer informações que satisfarão as expectativas da interação. Para atestar a autenticidade das informações, o usuário precisa de um certo nível de prova. Ao exemplificar com o caso de manipulação do lifelog para fugir de uma acusação de terrorismo, os autores afirmam que  “quanto maior a evidência contra o indivíduo, mais contundente sua prova necessita ser” (p. 25). Quanto mais rico o acervo de referências em um lifelog, mais convincente se torna.

Tópico 9 – Accountability of others:
Este breve tópico discute a “sousveillance” que, em linhas gerais, deve ser compreendido como o processo de registro de eventos pela comunidade. Tal atividade apoiaria o monitoramento das autoridades (maus tratos de policiais, por exemplo) pelos usuários comuns da rede. Ao levar em consideração a busca do lifelogger pelo bem estar de sua comunidade, é válido ressaltar a importância da disponibilização de ferramentas pelas quais o indivíduo poderá monitorar as autoridades, enviando tais registros à rede.

Tópicos 10 e 11 – Discussion e Conclusion:
Na parte final do texto, os autores resumem a discussão assumindo uma postura otimista com relação à prática do lifelogging. Apesar de reconhecerem alguns riscos, eles afirmam que esta atividade é uma janela para pensar questões ligadas à regulação e privacidade, apontando alguns estudos complementares que discutem lifelogging em outros vieses. Dentre as preocupações dos autores, está a possibilidade iminente das informações enviadas pelos usuários serem utilizadas para vigilância destes, como no caso do projeto LifeLog da DARPA. Neste sentido, ter conhecimento dos dados que podem ser visto pelos demais é um passo importante na preservação da privacidade dos usuários. Este ponto incide diretamente nas questões relacionadas ao maior controle sobre a própria identidade nos meios digitais, como defendido pelos autores anteriormente. A possibilidade de editar a maneira pela qual se apresentará aos demais corrobora esta questão. O usuário pode deletar informações que não julgue interessantes para si, embora esta postura contradiga o ethos do lifelogging.

Em suma, a prática de lifelogging é vista pelos autores como potencializadora para o usuário, no momento em que este exerce controle sobre quais informações poderão ser usadas na construção de uma identidade pessoal on-line.



[1] Segundo os autores, inicialmente Jennifer filtrava os momentos privados, mas a maioria do experimento se deu de forma bruta, sem filtragem.




terça-feira, 1 de maio de 2012

Questões enviadas pelos alunos relacionadas aos textos

RAMIREZ, Artemio; WALTHER,  Joseph. B;  BURGOON, Judee. K; SUNNAFRANK, Michael. Information-Seeking Strategies, Uncertaint, and Computer-Mediated Communication  - Toward a Conceptual Model. Human Communication Research, 2002, (p. 213-228).

WESTERMAN, David; HEIDE, Brandon; KLEIN, Katherine; WALTHER, Joseph. How do people really seek information about others?: Information seeking across Internet and traditional communication channels. Journal of Computer-Mediated Communication, v.13, 2008 (p.751- 767).

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> No texto “How do people really seek information about others? (…)” os autores se surpreendem com o fato de os blogs não estarem entre os meios citados com maior frequência, na pesquisa feita, como local onde as pessoas buscam informações sobre os outros. Situação contrária tem os sites de redes sociais, especialmente o facebook, citados no texto. Nos blogs, apesar da existência de comentários, o que está mais em evidencia é os temas que o autor posta, enquanto em muitos sites de redes sociais há um maior nível de interação entre “autores” e “seguidores”. Esta característica daria um noção de menor autocontrole na redes sócias, o que poderia aumentar a noção de autenticidade no que lá é dito. Este poderia ser apontado como um dos motivos pelos quais, conforme mostrado pela pesquisa do texto, as pessoas buscam mais informações sobre as outros nas redes sociais do que nos blogs?  


> Walther e Parks, abordando sobre a incerteza da veracidade das informações em ambiente de CMC (p225 – Texto Information Seking (...), falam na busca de “conexões”. Em outras palavras, eles propõem uma maneira comparativa de veracidade das informações disponíveis na CMC e na Comunicação Face a Face. Esta conexão estaria acontecendo em uma CMC com uso de uma web cam? Que certezas de veracidade este conversa teria?

> É possível dizer, com base no modelo conceitual proposto pelos autores do texto de 2002, que quanto mais socialmente importante um relacionamento for para os objetivos de alguém, maior será seu empenho para reduzir as incertezas sobre esse "outro", criando e combinando estratégias de busca de informações?

> Será que a metáfora da mangueira larga (para representar o mundo off-line) e da mangueira estreita (para o mundo on-line), no artigo de 2008, é mesmo a melhor maneira de fazer esta relação? Será que o tempo de duração de cada um dos processos não vai estar mais relacionado a aquilo que se quer saber sobre alguém do que a toda a informação disponível sobre esta pessoa?

> Buscamos informações online sobre o outro, tentando encontrar semelhanças pessoais a fim de nos sentirmos dentro do padrão da normalidade e pertencendo à sociedade?

> Até que ponto a expansão das possibilidades em se obter informações sobre o outro, com o qual temos convívio off line, é benéfico para o relacionamento, já que instiga maior procura por informações, muitas vezes gerando monitoramento de um lado e do outro preocupação exacerbada com o gerenciamento de impressões?

> Entendendo o momento de “busca de informações” sobre o “outro-alvo” como um aspecto do processo de interação, como explicam Ramirez, Walther, Burgoon e Sunnafrank (2002), então a questão do anonimato merece ser problematizada, no cenário das interações online. Numa primeira fase (a de buscar informações), conforme afirmam Heide, Westerman, Klein e Walther (2008), os indivíduos optam pela não revelação das suas ações de busca – ou seja, preferem ficar anônimos. Já em outros momentos da interação – o de aproximação inicial, por exemplo -, a proposta é exatamente a de deixar o anonimato de lado e se mostrar/apresentar, tanto através de fotos, textos ou de comentários de amigos intencionalmente deixados no “mural”, como uma forma de gerenciamento de impressão. Tendo em vista os dois artigos, questionamos: a importância do anonimato, então, é relativizada, assumindo graus variados, em momentos distintos da interação entre duas partes, a depender do interesse dos interagentes, em cenários digitais/online?

> Ramirez, Walther, Burgoon e Sunnafrank (2002) propõem que as estratégias de “busca de informações” chamadas de extractive strategies representam uma manifestação típica do contexto digital, indisponíveis para as comunicações face a face. Para ilustrar, os autores citam mensagens e arquivos disponíveis em newsgroups e a busca eletrônica por publicações acerca do “outro-alvo”. Nesse sentido, questionamos: seria essa estratégia, de fato, uma particularidade das interações online ou apenas assumiram outros formatos, passando, portanto, por uma ressignificação?


> Segundo o texto de RAMIREZ, WALTHER, BURGOON e SUNNAFRANK, "as estratégias ativas envolvem a aquisição de informações de outros indivíduos mas sem a interação direta com o alvo. Essas estratégias englobam aquisição de conhecimento indireto, incluindo o uso de informações de terceiros". Isso significa que o cuidado com a reputação online está se tornando um ponto-chave para as mais diversas relações, uma vez que tanto as empresas irão selecionar seus futuros empregados, como um parceiro irá selecionar seu futuro relacionamento com base nessas estratégias? As pessoas/ profissionais que se preocuparem com sua buscabilidade terão vantagem sobre os "desavisados"?

> De acordo com o texto de Westerman, Van Der Heide, Klein e Walther, "os sites de redes sociais foram relatados como úteis para o aprendizado sobre todos os tipos de alvos". Desta forma, tenderemos a utilizar impressões socialmente desejáveis na construção de nossa "timeline" de uma forma cada vez mais estratégica, elaborando nossos discursos, nos associando a pessoas, expressando atitudes e, até mesmo, trablahndo nossa aparência física, com o objetivo de conseguirmos melhor colocação profissional, a adição de novos amigos e o aumento de nossa audiência? De que maneira isso afetará nosso self privado? Estaremos cada dia mais "reféns" de como gostaríamos de ser observado pelos outros?


> Segundo os autores, a comunicação mediada por computador, em relação ao contexto face a face, traria duas vantagens: a) algumas estratégias exclusivas; b) possibilidade de empregar estratégias de busca por informação durante a própria interação. Ainda de acordo com os autores, aspectos como armazenamento, visibilidade e possível navegação anônima, próprias da CMC, oferecem modos alternativos de busca por informação social que não envolvem a interação direta. Através de estratégias extrativas, os indivíduos acessam repositórios de informação social, tais como fóruns, chats e sites de redes sociais, para acessar os comentários e outras informações sobre o alvo social. Desta forma, durante a comunicação mediada por computador estaríamos realmente ‘nos comunicando’ ou ‘investigando’? E será que na interação face to face também não fazemos isto, ou seja, investigar, mas somente com estratégias diferentes? Talvez, na interação face a face, a diferença seria no tempo de resposta desta investigação? Ou então, será que tudo o que ‘encontramos’ nas redes sociais são informações verdadeiras?

> Uma vez que o aspecto abordado é a comunicação mediada pelo computador, o fator tecnologia está presente. Mas, as pessoas envolvidas nesta comunicação estão todas no mesmo patamar de entendimento do uso, benefício desta tecnologia? Será que o fato de um dos ‘agentes’ deste processo comunicacional apresentar uma ‘defasagem’ no aspecto tecnológico não compromete as impressões emitidas (given off) e as impressões transmitidas (given)?


> O texto "how do people really seek informtion about others?" trata da busca de informações sobre o outro e afirma  que essa busca influencia  no gerenciamento de impressão. Essa busca se dá através dos aplicativos na rede que, muitas vezes, rompem linhas tênues relacionas à ética. De que forma então podemos problematizar os limites da ética entre a busca de informações de quem não quer se revelar e os aplicativos que o revelam?

Fichamento - Autoapresentação e gerenciamento de impressões em redes sociais digitais 2/3

RAMIREZ, Artemio; WALTHER,  Joseph. B;  BURGOON, Judee. K; SUNNAFRANK, Michael. Information-Seeking Strategies, Uncertaint, and Computer-Mediated Communication  - Toward a Conceptual Model. Human Communication Research, 2002, (p. 213-228).

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Por João Pedro Pitombo, Lorena Souza e Wladimir Pinheiro

SOBRE OS AUTORES

Artemio Ramirez Jr. (Ph.D., University of Arizona, 2000) é um professor assistente de comunicação na Universidade de Minnesota, Duluth.

Joseph B. Walther (Ph.D., University of Arizona, 1990) é um professor associado de comunicação no Rensselaer Polytechnic Institute.

Judee K. Burgoon (Ed.D., West Virginia University, 1974) é um professor de comunicação e estudos de família e diretor de pesquisa de comunicação humana, no Centro de Gestão da
Informação da Universidade do Arizona.

Michael Sunnafrank (Ph.D., University MichiganState, 1979) é um professor de comunicação da Universidade de Minnesota, Duluth.

OBJETIVO DO ARTIGO
O objetivo principal deste artigo é discutir estratégias e identificar os fatores que influenciam na seleção de alternativas,  na  busca de informações sociais através de Comunicação Mediada por Computador (CMC) e incorporá-las em um modelo conceitual.
O artigo discute estratégias alternativas, assim como expõem as estratégias existentes, utilizadas pelos indivíduos em CMC para adquirir informação dos seus alvos.

ARGUMENTAÇÃO CENTRAL: As pesquisas anteriores não dão conta de entender como acontece a busca de informação na CMC e nas novas mídias. Então, é necessário identificar os fatores que influenciam a busca de informação social nos meios virtuais; quais as estratégias utilizadas pelos indivíduos, para buscar informações de terceiros, gerando assim uma proposta de modelo conceitual para busca de informação na CMC e novas mídias.

TÓPICO 1 – PESQUISAS DE INFORMAÇÃO E CORRENTE TÉORICA
Neste tópico os autores pontuam que  as teorias iniciais  que abordam  o processo de comunicação dos indivíduos, deixaram de considerar o papel ativo destes no processo. O autor esclarece que as teorias  que Culnanand  Markus (1987), tinha como hipótese que no meio on-line, as relações eram mecânicas e deixavam de perceber o outro no seu íntimo.  Sendo assim, estas perspectivas  supõem que  o índice de incerteza quanto ao outro e  a capacidade de adquirir informação social é limitada, pois o meio on-line elimina ou reduz o sinais não-verbais e contextuais.
Os autores pontuam abordagens mais recentes que tendem a estudar o comportamento de busca de informações. São as perspectivas teóricas:
·         SIDE – modelo de identificação / individuação-social: aborda como indivíduos em CMC se ajustam cognitivamente para formar impressões sobre os outros, com informações mínimas (Lea & Spears, 1992, 1995).
·         SIPT – teoria de processamento de informações sociais: esta teoria propõe que os indivíduos não se limitam a mensagens convencionais de conteúdo ou linguística, mas também, recorrem a fatores chronemic disponíveis, incrementando suas mensagens com conteúdos de informação social.
·         Perspectiva hiperpessoal – “propõe que os receptores se envolvam em processos atribucionais para reduzir a incerteza e, ao fazê-lo, são susceptíveis de fazer atribuições exageradas baseadas em informações limitadas.” (tradução livre, p. 216).
Os autores pontuam que estes modelos e a perspectiva  propõem  explicações para  a busca de informação em CMC, porém as informações obtidas ainda não são claras.

TÓPICO 2 -  RUMO A UM MODELO CONCEITUAL DE INFORMAÇÃO SOCIAL
Neste tópico o artigo irá abordar possíveis estratégias para adquirir informação na CMC e nas novas  mídias. A partir de então, os autores tentam formular um modelo de busca que envolva todos os processos para chagar ao objetivo.  
A incerteza nesta sessão é conceituada como “um estado cognitivo com base na discrepância entre a informação desejada ou a qualidade do que adquiriu. A incerteza é vista  como um medidor para controlar a eficácia na busca de informação”( tradução livre, p. 217).
Ainda neste tópico os autores sugerem três hipóteses  centrais para traçar um quadro geral da busca de informação na CMC.
1º A busca por informação se dar por um objetivo ou por objetivos, ou seja, esta busca não acontece do nada e para o nada.
2º  Algumas buscas necessitam de interação humana e outras não; quanto mais importante o objetivo a ser alcançado maior o número de estratégias  empregadas pelo indivíduo na CMC.
3º Na CMC  o indivíduo é livre para buscara informação da forma que desejar, o que muitas vezes são indisponíveis na face-a-face.

TÓPICO 3 – ESTRATÉGIAS DE BUSCA DE INFORMAÇÕES NO CMC E NOVAS MÍDIAS
Neste tópico os autores irão propor  três tipos de estratégias para adquirir informação. São elas:
Estratégias interativas:  interação direta entre o comunicador e o destino desejado. Os autores pontuam que neste processo diferentes táticas são decretadas para obter a informação desejada. O comunicador pode: interrogar o alvo, divulgar informações destinadas a provocar a divulgação recíproca ou torna a meta menos tensa, como uma forma de adquirir informação.

Estratégias ativas:  nesta estratégia  há aquisição de informação através de outros indivíduos, mas não há interação com o alvo.  O indivíduo que busca a informação utiliza de fontes de informação, ou  seja, sujeitos ligados ao alvo para adquirir informação do mesmo.  Esta troca de informação com terceiros pode acontecer, por exemplo, por  e-mail ou bate-papo.

Estratégias passivas: as informações são adquiridas através de observação passiva, ou seja, o indivíduo que busca pela informação não interage com o meio, somente observa. Os autores exemplificam com o uso do Cco (cópia oculta) de e-mails que permite uma observação “às escondidas”.

TÓPICO 4 – FATORES QUE INFLUENCIAM A SELEÇÃO DE ESTRATÉGIAS
Fatores relacionados ao comunicador: aspectos relacionados às características da personalidade do indivíduo que busca a informação. Este usaria de atribuições pessoais na utilização de estratégias.
Fatores relacionados à situação/contexto: fatores externos podem influenciar na seleção de estratégias, como: tempo disponível, hora do dia ou distância física.
Fatores relacionados à meta: as estratégias usadas vão depender da meta que o indivíduo almeja.
Fatores relacionados à informação: inclui quantidade de informação desejada, qualidades associadas e se as necessidades  de informação são amplamente definidas.
Fatores relacionados à tecnologia: fatores relacionados à eficácia da tecnologia, se esta contribuiu para busca de informação e se é eficiente, eficaz e fácil de utilizar.

TÓPICO 5 – DIFERENÇAS DE BUSCA POR INFORMAÇÃO E OBSERVADOR PARTICIPANTE
A diferença básica entre a busca de informação interativa  e a busca de informação participativa  é que na primeira há interação ativa do observador e na segunda o observador mantém observações discretas para com o alvo. “ Estas posições diferentes em interação têm implicações importantes para não só com a informação que é adquirida, mas também como ela é processada e avaliada (...) e, por sua vez, para formação de impressões e desenvolvimento do relacionamento” (tradução livre, p. 224).  
Os autores pontuam  que   “a busca de informação na CMC e as novas mídias podem aumentar o nosso conhecimento em pelo menos duas direções teoricamente importante”(tradução livre, p. 225). Em  Primeiro lugar,   a busca de informação passiva pode ser a primeira  forma de estratégia utilizada pelo indivíduo que busca informação, sendo que depois de avaliar as informações adquiridas e começar a formular impressões do alvo, ele pode mudar para estratégia interativa. Em segundo lugar, a busca de informação acontece através de comportamentos interligados e estratégias que podem ser únicas, múltiplas, seqüenciais e/ou simultâneas. 

TÓPICO  6 – CONCLUSÃO

Com o modelo proposto pelo artigo, os autores tentam expor as necessidades, que para eles, as pesquisas anteriores não conseguiram suprir. Necessidades estas de se entender e comparar os efeitos e a eficácia da busca de informações em CMC e novas mídias, e as estratégias utilizadas para alcançar o alvo, o objetivo.



Fichamento - Autoapresentação e gerenciamento de impressões em redes sociais digitais 2/3

WESTERMAN, David; HEIDE, Brandon; KLEIN, Katherine; WALTHER, Joseph. How do people really seek information about others?: Information seeking across Internet and traditional communication channels. Journal of Computer-Mediated Communication, v.13, 2008 (p.751- 767)

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Por João Pedro Pitombo, Lorena Santos e Wladmir Pinheiro


Sobre os autores:
DAVID WESTERMAN é Doutor pela Universidade Estadual de Michigan (EUA) e Professor Assistente na Universidade da Virgínia Ocidental, em Morgantown. Desenvolve pesquisas sobre como a tecnologia é empregada para alcançar metas, tanto numa esfera de ‘massa’ quanto em um nível ‘interpessoal’.

BRANDON VAN DER HEIDE é Doutor pela Universidade Estadual de Michigan (EUA) e Professor Assistente na Escola de Comunicação da Universidade Estadual de Ohio. Pesquisa as formas de interação mediada por computador, tendo como foco o modo como as pessoas formam e administram impressões a respeito das outras através das tecnologias de comunicação.

KATHERINE A. KLEIN é Doutora pela Universidade do Texas (EUA) e Professora na Universidade da Pensilvânia. Possui ampla pesquisa nas áreas de liderança e psicologia organizacional, grupos e redes sociais, implementação e inovação tecnológica.

JOSEPH WALTHER é Doutor pela Universidade do Arizona (EUA) e Professor do Departamento de Comunicação da Universidade de Michigan. Pesquisador da comunicação mediada por computador e das formas de interação e níveis de relação através dos usos das tecnologias da comunicação.

Objetivos do capítulo: A pesquisa descreve o modo como os indivíduos utilizam os diferentes meios de comunicação no processo de busca de informação sobre outros indivíduos. A partir da teoria de Stephens (2007) sobre os usos das Tecnologias de Informação e Comunicação (ITC), buscou-se classificar os tipos de usos empregados pelos indivíduos na busca por informações a respeitos de pessoas em diferentes níveis de relacionamento. O texto examina ainda o papel dos sites de redes sociais nesse processo de busca, bem como suas implicações teóricas, já que estes foram frequentemente reportados como importante canal na procura por informações interpessoais, tanto para alvos pouco conhecidos quanto para os mais próximos da rede de relacionamentos.

Argumentação Central: Como as pessoas buscam informações sobre outras? Para analisar o modo como os indivíduos lançam mão das tecnologias da comunicação para buscar informações a respeito de outros, 225 participantes responderam a um questionário. Segundo apontou resultado, grande parte deles mostrou-se mais propenso a utilizar canais de comunicação onde não poderiam ser reconhecidos para pesquisar informações sobre ‘alvos’ pouco conhecidos. Por outro lado, esses mesmos participantes demonstraram uma maior probabilidade de utilizar canais onde poderiam ser reconhecidos para buscar informações de ‘alvos’ já conhecidos. A presente pesquisa, no entanto, alerta que o número reduzido de análises descritivas aponta para uma lacuna na literatura sobre Comunicação Mediada por Computador (CMC). Ainda segundo os pesquisadores, embora haja um número cada vez maior de canais que as pessoas possam escolher, é pequeno o número de estudos sobre o que leva as pessoas a escolherem determinados canais para alcançar certos objetos interpessoais. Antes de responder à pergunta inicial, a pesquisa analisa a Teoria da Redução da Incerteza (Berger & Calabrese, 1975).

Tópico 1 - Teoria da Redução da Incerteza (URT): Um dos objetivos interpessoais mais básicos é reduzir as incertezas sobre os outros, que enquanto formação das impressões, pode ser visto como um processo de espelhamento para o gerenciamento de impressões. A URT tenta explicar e prever como as pessoas formam impressões a respeito dos outros e foca no processo de comunicação interpessoal nas interações iniciais. O núcleo dessa teoria (URT) é de que a principal preocupação quando as pessoas conhecem umas às outas é reduzir as incertezas a respeito delas e dos outros, a fim de aumentar a previsibilidade sobre o comportamento, tanto de si, quanto dos outros. Assim, quando em uma situação há incertezas em relação a um indivíduo, aquele tenta reduzir as ambiguidades daquela situação buscando informações pertinentes aquele específico caso. Como um estudante que busca reduzir as incertezas sobre seus professores buscando informações sobre aquelas pessoas de várias formas. Apesar de ter sido originalmente formulada para analisar a interação interpessoal inicial, a URT tem sido aplicada em diferentes níveis de interação e em diversos tipos de relacionamento. As incertezas ocorrem em qualquer estágio da interação mesmo naqueles relacionamentos mais próximos. Assim, a necessidade de reduzir as incertezas sobre os outros não desaparece uma vez que você passa a conhecê-la melhor, mas, ao contrário, é um processo, ora de aumento, ora de redução dos níveis de incerteza. Vários estudos concordam que diferentes fontes de informação podem reduzí-la, mas nenhuma esclarece o modo como os indivíduos utilizam a diversidade de canais disponíveis para conhecer os outros. Uma abordagem que pode ajudar é a Teoria da Sucessão de Informação e Comunicação Tecnológica.

Tópico 2 - ICT Teoria da Sucessão:
Stephens (2007) propõe um modelo de como a escolha do canal ocorre como um processo, ao invés de analisa-la separadamente. Como parte desse modelo, Stephens sugere que tarefas diferentes podem ser melhor cumpridas utilizando diferentes canais. Nesse tópico, os autores apresentam as duas hipóteses citadas na introdução da pesquisa. Hipótese 1: Canais que permitem que indivíduo anonimamente busque informações sobre um alvo serão utilizados mais frequentemente quando este alvo for menos conhecido pelo 'buscador'; Hipótese 2: Canais que exigem que o indivíduo seja identificável a um alvo serão utilizados mais frequentemente quando este alvo for mais conhecido pelo 'buscador'. Então, é oferecida uma terceira hipótese: de que canais que combinam ambos os tipos de atributos (como os sites de redes sociais: Facebook, MySpace) serão utilizados para conhecer alvos mais ou menos conhecidos

Tópico 3 - Método: Nesse tópico, a pesquisa faz uma classificação por idade, sexo, ancestralidade, etc. dos estudantes que responderam ao questionário, bem como os procedimentos e medidas utilizados.

Tópico 4 - Resultados: Os dados fornecidos pela pesquisa comprovaram as três hipóteses. Os canais que permitem que indivíduo mantenha o anonimato ao procurar informações sobre um alvo serão utilizados mais frequentemente quando este alvo for menos conhecido; Canais que exigem que o indivíduo seja identificável a um alvo serão utilizados com maior frequência quando este alvo for mais conhecido. E canais que combinam ambos os tipos de possibilidade, como os sites de redes sociais, serão utilizados para buscar informações sobre os alvos mais e menos conhecidos. Embora a utilidade dos grupos de canais fosse embasada pelas hipóteses previstas, essas previsões ainda dizem muito pouco acerca de quão útil cada canal é de verdade. Alguns canais são utilizados para buscar informações sociais através dos alvos relacionais. Aí estão incluídos SMSs e usar outras pessoas para obter informações. Sites de redes sociais, como o Facebook e MySpace são considerados úteis, exceto para buscar informações sobre membros da família. Isso pode ter relação com o fato de que esses sites são principalmente utilizados por estudantes e universitários, embora sua popularidade tenha recentemente estendido seu uso a outras populações. Assim, muitos dos familiares ainda não estão presentes nestes sites. Estudos futuros poderiam examinar porque SRS são utilizados e como as impressões sobre outras pessoas são formadas nesses sites.

Tópico 5 - Implicações Teóricas: Embora Teoria da Sucessão de Stephens (2007) tenha sido desenvolvida com foco nas tarefas organizacionais, sua aplicação às relações interpessoais se mostrou bastante útil. Essa abordagem pode ajudar a explicar e prever qual canal poderá ser utilizado na busca por informação interpessoal. Porém, sua aplicação não pode ser feita sem uma reflexão anterior, já que algumas de suas proposições não se aplicam necessariamente à esfera interpessoal. O texto conclui que as abordagens que os buscadores de informações usam para avaliar a veracidade das informações online estão apenas começando a ser exploradas.


Tópico 6 - Limitações e Direcionamentos Futuros: Como ocorre em todos os estudos, a pesquisa atual tem limitações, e uma delas gira em torno de tentar medir a probabilidade. Os 225 participantes foram solicitados a classificar a probabilidade de uso de cada canal para obter informações sobre uma variedade de pessoas diferentes. Embora útil este método baseada na graduação pode não refletir com precisão o comportamento real dos participantes. Em vez de ratings hipotéticos, as pessoas poderiam recordar experiências já vividas na busca por informações interpessoais. Também poderiam ser usados experimentos em que as pessoas seriam solicitadas a encontrar informações sobre determinadas pessoas a partir das opções de canais, e, assim, observar as escolhas de cada um.  Outra possível limitação é relativa à população escolhida para participar da enquete. Kim, Kim, Park and Rice (2007) utilizou estudantes universitários que diziam se comunicar com as pessoas utilizando determinada variedade de canais. Entretanto, isso não é verdade para todos os grupos.

Tópico 7 - Conclusão:  Esta pesquisa é, segundo os autores, uma tentativa inicial de entender como as pesosas usam a variedade de canais à sua disposição para buscar informações sobre os outros. Os dados sugerem que as pessoas usam uma variedade de canais e, estes métodos diferem em relação ao tipo de alvo sobre o qual se está buscando informações. A pesquisa aponta para uma necessidade de refinar a redução de incertezas em relação ao uso da internet e de outros canais. Destaca ainda a necessidade de estabelecer os limites das principais teorias na Comunicação Mediada por Computador.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Questões enviadas pelos alunos relacionadas aos textos


BARASH, Vladimir; DUCHENEAUT, Nicolas; ISAACS, Ellen; BELLOTTI, Victoria. Faceplant: Impression (Mis)management in Facebook Status Updates.

MARWICK, A.; BOYD, D. I tweet honestly, I tweet passionately: Twitter users, context collapse, and the imagined audience.

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Algumas pesquisas sobre comportamentos dos usuários no Facebook, incluindo uma recente da Hi-Mídia e  M.Sense, revelam que esta rede tem forte apelo para comunicação com familiares e amigos, muitas vezes já conquistados no “ambiente offline”. Este tipo de relação mais próxima pode explicar, pelo menos em parte, o êxito das dimensões “cool” e "entertaining" para um face work de sucesso nesta rede?

A diversidade da audiência no Twitter pode de fato dificultar o processo de auto- apresentação?  Ou tendemos a simplificar a audiência imaginada para facilitar o nosso gerenciamento de impressões?

No texto Faceplant: Impression (Mis)management in Facebook Status Updates, os autores sugerem as dimensões cool e entertaining como relevantes para o sucesso de face-work em sites de redes sociais, especificamente em atualizações de status do Facebook, mas não poderíamos supor que este sucesso é contextual? Melhor dizendo, auto-apresentações não seriam bem sucedidas com base em intenção e expectativas? A audiência como “amiga” não pode esperar e até mesmo reivindicar do participante atualizações uncool e boring para se filiar? Ou seja, esses atributos seriam socialmente aprovados por quem e para quem?

Marwick e Boyd afirmam que no Twitter existe uma desconexão entre followers e followed. Isso também não indicaria uma desconexão de foco (no sentido usado por Feld como as circunstâncias e razões pelas quais as pessoas se encontram e formam laços com as outras) nesta interação social online? Por exemplo, o fato de ser mais fácil discordar ou criticar os outros no Twitter porque eles não são nossos “amigos”, comprovaria esse descompromisso maior entre as conexões e/ou um maior comprometimento com nossas próprias opiniões? Então, o que une de fato as pessoas neste ambiente?

O texto Faceplant - Impression (Mis) management in Facebook menciona que os usuários das redes sociais, para construir imagens bem sucedidas, tendem a postar feeds que reforcem a idéia de que são legais ou divertidos – ddimensões que, segundo os autores, são vistas como mais predominantes no “jogo” de gerenciamento de impressões. Mas o que dizer dos usuários que conseguem projeção/fama nos SNSs investindo em atributos “negativos”, como sarcástico, briguento ou mal-humorado?

O twitter do jornalista Ricardo Noblat foi apontado como um dos mais seguidos do Brasil e o mais influente na área política, podendo ser considerado uma microcelebridade brasileira. Citado este exemplo “nacional”, quais são os desafios enfrentados no processo de gerenciamento do publico em rede, uma vez que o universo de seguidores tende a ser crescente e com perfis os mais diversos possíveis? O tempo e a energia necessários para que o “dono/autor” do twitter faça um gerenciamento eficiente de sua rede (analisando os feedbacks, verificando a repercussão de seus posts e dando respostas) não estaria sendo desviados daquilo que deveria ser a meta principal dos seus tweets (expressar uma opinião, contar algo de vivenciou, compartilhar uma informação, etc)?

Os resultados da pesquisa de Barash mostram a alta relevância das postagens ‘cool and entertaining updates ‘ para gerenciamento de micro impressões de sucesso. Essa tendência  não plenamente percebida pelos usuários; pode anunciar faces simuladas para fins intencionais de controle e manipulação em sites de consumo e ou espaços virtuais(como jogos) que viciam?

Pensando nas ideias de Jodi Dean (2002), o comportamento no twitter pode ser pensado como uma compulsão por um consumo narcísico do que em si mesmo é passível de ter/ser desejado pelo outro?

 Embora o trabalho de Goffman nos passe uma bem estabelecida metáfora (palco e platéia) para a compreensão do gerenciamento de impressão, o texto de Barash, Ducheneaut, Isaacs e Bellotti nos mostra a possibilidade de um espetáculo com um "palco flexível", que "se adapta à platéia" de acordo com "os aplausos ou vaias"?

Segundo o texto de Marwick e Boyd, "muitos indivíduos conceituam um público imaginário, que é evocado por meio de seus tweets". Essa necessidade de se comunicar visando aumentar a audiência, influenciada pela necessidade de sucesso ou pela necessidade de atenção, faz com que artifícios estratégicos sejam utilizados, deliberadamente, em todos os posts? Ou trata-se de mensurar e gerir se quem você e as coisas que você faz interessam a ponto de formar uma audiência?

No artigo de Vladimir Barash et al, os autores apontam empiricamente que, em redes como o Facebook, as pessoas tendem a ver os posts dos outros de forma positiva. Este resultado teria sido impulsionado pelo fato de as pessoas estarem analisando seus próprios amigos? O sentimento de pertencimento ao grupo não faria com que a  pessoa tendesse a apresentar os membros daquele grupo de maneira positiva?

Marwick e Boyd apontam que, no Twitter, os usuários que querem construir uma audiência devem balancear a autenticidade pessoal às expectativas da audiência. De que forma os portais noticiosos podem construir esta autenticidade na medida em que eles não passam de "pessoas jurídicas".? Caminharemos para um cenário em que os meios de comunicação serão representados nas redes sociais pelos seus jornalistas e não por perfis da empresa ou das editorias?

Na busca de informação sobre o outro como processo de interação nas redes sociais, mas que se dá pelo anonimato, constitui-se numa quetão que deve ser problematizada, uma vez que interação pressupõe aproximação entre os indivíduos que interegem e aproximação  pressupõe a existência de um conhecimento entre eles. Seria esse anonimato o gerenciamento da impressão que NÃO pretendo causar no outro através dessa auto-apresentação anônima? Ou ainda. seria a auto-apresentação anônima uma auto-apresentação, uma vez que o prefixo "auto" faz uma referência a si mesmo? 

Há de se problematizar ainda sobre o outro de quem buscamos informação para estabelecer uma intereção. Seria o outro um sujeito "informável" ou seria o outro "um outro" do outro (também constituído no anonimato gerenciado)?
Barash, em seu texto, se propõe também a identificar um determinado tipo de post mais propenso a receber comentários e "likes" nas redes sociais. Da maneira como foi construída não seria uma tentativa a esmo? Uma vez que as próprias redes de conexão entre usuários são articuladas conforme gosto pessoal, preferências e afinidades, observar o padrão de postagens que mais repercutem não seria um estágio posterior à observação do grupo em si?

O artigo de Marwick e boyd transita acerca da relação entre o gerenciamento de impressões e as redes sociais digitais, apontando desdobramentos como múltiplas audiências, audiência imaginada, autoapresentação enquanto processo colaborativo entre outros tópicos válidos de observação. Neste sentido, as autoras necessitam conceitar "página pessoal" (personal homepage) para subsidiar a discussão posterior no tocante às particularidades do meio observado. As autoras citam Papacharissi, descrevendo as páginas pessoais como "a carefully controlled performance through which self presentation is achieved under optimal conditions". O que configura as condições favoráveis para a autoapresentação e o consequente gerenciamento de impressão é inerente ao ator, ao interlocutor ou é algo in between?

Fichamento Autoapresentação e gerenciamento de impressões em redes sociais digitais 1/3

BARASH, Vladimir; DUCHENEAUT, Nicolas; ISAACS, Ellen; BELLOTTI, Victoria. Faceplant: Impression (Mis)management in Facebook Status Updates.

MARWICK, A.; BOYD, D. I tweet honestly, I tweet passionately: Twitter users, context collapse, and the imagined audience.

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ALICE E. MARWICK (twitter: @alicetiara) é pos doutoura pelo Departamento de Mídia, Cultura e Comunicação da Universidade de Nova York (2010) e pesquisadora na Microsoft Research New Englanda in Cambridge, MA.  Sua dissertação examinou como as pessoas usam as mídias sociais para aumentar o seu status, focando na divulgação de suas vidas, no processo de micro-celebridades e se apresentando como “marcas”. Alice se define no blog tiara.org como um entusiasta da internet de longa dada. No blog estão os seus pensamentos sobre softwares sociais, tecnologia, cultura pop e política, além de outros assuntos de seu interesse.

Veja uma entrevista com Alice Marwick durante a Conferência Livre de Cultura – 2008 (clique aqui!)

DANAH BOYD  (twitter: @zephoria) é pos doutoura pela School of Information (iSchool) na University of California-Berkeley), pesquisadora senior na Microsoft Research, professora assistente de Mídia, Cultura e Comunicação na New York University e pesquisadora visitante na Havard’s Berkman Centers. Suas pesquisas focam na observação de como os jovens usam as mídias sociais nas suas praticas diárias. Nos anos recentes Boyd estuda Twitter, blogging, sites de redes sociais e outras formas de mídias digitais.  A pesquisadora mantém o blog Zephoria.org, cuja proposta, numa livre tradução, é “fazer conexões onde previamente não existiam”.

Veja uma entrevista de Danah Boyd, veiculada pelo The Guardian, na qual ela fala sobre privacidade de jovens na internet (clique aqui!).

Objetivos: Este artigo investiga como os produtores de conteúdo navegam em “audiências imaginadas" no Twitter. As autoras conversaram com participantes que têm diferentes tipos de seguidores para compreender suas técnicas, incluindo a de focar em diferentes públicos, esconder assuntos, e manter a autenticidade.

Argumentação Central: As tecnologias das mídias sociais colapsam várias audiências em contextos individuais, o que torna difícil para as pessoas usar as mesmas técnicas on-line que elas fazem para lidar com a multiplicidade na conversa cara-a-cara. Algumas técnicas de gestão do público lembram as práticas de "micro-celebridade” e “marca pessoal”, ambas auto-promoção estratégica. Nosso modelo de audiência em rede assume uma comunicação de muitos para muitos através da qual indivíduos conceituam um público imaginado evocado através de seus tweets.

Tópico 1 –Imaginando a audiência on line
As tecnologias complicaram as metáforas de espaço, problematizando também a crença de que as audiências estavam separadas uma das outras.  Neste tópico é mencionado o trabalho inicial de Joshua Meyrowitiz, publicado em 1985 e intitulado No Sense of Place (Sem senso de lugar).
Na obra em questão, foi aplicada a teoria interacionista e teorizado que os meios eletrônicos (como rádio e TV), ao eliminar barreiras entre situações de separação social, haviam contribuído para as rápidas mudanças sócias do EUA nos anos 1960. Para as autoras de forma similar a Self-presentation theory (Teoria da Auto-Apresentação) tem sido utilizada para entender combinações de audiências através dos meios digitais.
O advento das “homepages” é exemplificado como um momento inicial das apresentações de identidade multimídia. Com base nos estudos de Papacharissi (2002), Sachau and Gilly (2003) e Robinson (2007), são descritas as características das homepages, como controle de self-presetation; a audiência indefinida; e a generalização, o que torna as homes mais isoladas do que os blogs que presumem contínua comunicação com a audiência. O caso dos “dating sites” (paginas de encontros) também é citado. As autoras consideram que neste tipo de mídia, as pessoas estão altamente conscientes da audiência. Citando Ellison et al (2006) elas lembram que os anúncios pessoais, nos “dating sites”, são construídos com alta dose de self-consciousness porque as pessoas sabem que serão examinadas por seus pretendentes.
Para Marwick e Boyd há algo de semelhante entre as redes sociais e os “dating sites”, quando os usuários marcam suas preferências, baseado na audiência imaginada de seus amigos e pares. Nesta vertente é mencionado o study of “taste cultures” (Estudo de gostos culturais) em sites de redes sociais, de Liu (2007), quando a autora diz que alguns participantes das redes listam suas preferências de filmes, músicas, programas de TV, etc, para transmitir prestigio, singularidade ou preferência estética.

Tópico 2 – Twitter
A parte inicial deste tópico apresenta o Twiiter ao leitor. São mencionados o perfil e as características desta rede social. A escrita até 140 caracteres; a pergunta inicial “What are you doing?” (O que você está fazendo?); a time-line; a possibilidade de postar fotos; etc. Depois é um brevíssimo relato de como a rede surgiu e cresceu. O serviço foi lançado em 2006, mas teve crescimento exponencial entre 2008-2009. Em maio de 2009, o Twitter tinha 18,2 milhões de usuários, um crescimento de 1.448% desde maio de 2008. As celebridades e pessoas públicas são as que possuem os maiores números de seguidores, como exemplo é citado o caso do presidente Barack Obama, do ator Ashton Kutcher e da cantora Britney Spears.

2.1 –Twiiter e audiência
Neste tópico é mencionada a desconexão entre seguidores e seguidos no Twitter, ou seja, não existe obrigação técnica de reciprocidade.  Alguns usuários são seguidos por centenas de milhares e seguem poucas dezenas. Vale ainda pontuar que o número de seguidores é uma audiência potencial. Não há garantias e nem pode-se esperar que todas as mensagens emitidas sejam lidas por todos os seguidores.
Uma forma de crescimento de números de seguidores no Twitter é através da retransmissão de mensagens (retwitting). Isto porque o ato pode introduzir os usuários a uma nova audiência. Vale salientar, no entanto, que as mensagens “retwittadas” podem ser alteradas, criando a possibilidade de perda de referência com a original.  Conforme lembram as autoras, é virtualmente impossível para os usuários saber quem é a sua audiência. Desta forma, sem conhecimento especifico dela os usuários a imaginam. 

Tópico 3 - Como usuários do Twitter imaginam audiências

3 .1 – Metodologia
Neste subtópico, Marwick e Boyd apresentam a metodologia da pesquisa para a produçaõ do artigo. Elas explicam que as questões da pesquisa foram feitas diretamente aos usuários do Twitter. Elas enviaram questões para os seus seguidores e para alguns usuários que estavam na timeline pública. Na pesquisa foram envolvidas 300 “most-followed accounts (249 total)” e usuários com 1.000-15.000 seguidores.
Primeiramente foram feitas duas perguntas:

·         “Quem você imagina lendo os seus twitts?”
·         “Você twitta para quem?”

Depois foi questionado:

·         O que faz um indivíduo ser autêntico no Twitter?
·         Sobre o que você não Twittaria?
·         Quais assuntos são inapropriados para o Twitter?

Após a publicação das perguntas, as pesquisadoras não tinham como avaliar quantas pessoas viram seus tweets. Elas anotaram que receberam 226 respostas de 181 usuários, através de Directy Messages – DM (Mensagens Diretas) ou de @replies. As respostas recebidas revelaram diferentes perspectivas de audiência.

3.2 – Pra quem eu estou falando?
Os informantes da pesquisa conceituaram sua audiência no Twitter de diversas e variadas maneiras. A maioria das repostas focaram em categorias abstratas de pessoas, como “amigos”. Alguns focaram em si próprios. 

·         I think I write to the people I follow and have twittered something recently. And I also tweet to myself. Is that wrong?

(Eu acho que eu escrvo para as pessoas que eu sigo e tenho twittado recentemente. E twitto pra mim também. Isso errado?)

·         I guess I’m tweeting to my friends, fans... and talking to myself.

(Eu acho que estou twittando para meus amigos, fãs... e falando comigo mesmo)

Diante das respostas, transcritas acima, aborda-se algumas questões. São mencionadas a dificuldade de singularizar a palavra “amigo” nas redes sociais e o costume das pessoas em imaginar o Twitter como uma rede social, onde eles podem comunicar com amigos pré-existente.
As pesquisadoras também observaram tipos diferentes de posicionamentos para quem os informantes que se referiram a si próprios como audiência. Para elas, alguns pensam no Twitter como um diário, onde eles podem gravar as suas vidas. Já outros, observam na rede social um serviço onde eles podem expressar opiniões sobre si próprios. O artigo observa, entretanto, que tais pessoas não estão twittando pra o nada. Eles têm seguidores e seguem outros, mas, a ênfase em si própria implica que estas pessoas não estão preocupadas com a reação das outras. De modo similar, alguns poucos viram a elaboração de tweets para uma audiência particular como problemática.

· when I tweet, I tweet honestly, I tweet passionately. Pure expression of my heart.

(quando eu twitto, eu twitto honestamente, eu twitto apaixonadamente. Pura expressão do meu coração)

             A partir deste ponto o texto discute acerca da questão da autenticidade. Neste ponto quando o usuário fala conscientemente para uma audiência é visto como “inautêntico”.  As autoras citam Grazian (2003) para lembrar que autenticidade também é uma construção social.
Outros que responderam as questões sugeriram que as concepções de audiência dependem do Twitter. Para as autoras, quem observa dessa forma imagina o Twitter como um meio, igual ao telefone ou e-mail, o qual pode ser usado para diferentes propósitos. No entanto, elas estabelecem diferenças chamando atenção para o fato de que um típico e-mail (assim como o telefone - grifo nosso) é uma comunicação com uma audiência articulada, com uso particular e o Twitter é preliminarmente público.

3.2 - Audiências estratégicas
Marwick e Boyd iniciam este subtopico lembrando que, em contraste com noções gerais de audiências imaginadas, os usuários do Twitter possuem número de seguidores específicos. Alguns são seguidos por amigos, familiares e colegas de trabalho, já outros chegam a ter 100.000 seguidores. Esta quantidade sugere uma base de fãs ou comunidade que eles podem gerenciar.
O artigo destaca as estratégias de micro-celebridades, descritas por Senft (2008) como uma técnica de comunicação que envolve as pessoas e amplia sua popularidade na web através de vídeos, blogs e redes sociais. As autoras então pontuam que “micro-celebridade” implica que todos os indivíduos tem uma audiência que eles podem estrategicamente mantê-la através de comunicação contínua e interação, utilizadas até mesmo por as celebridades tradicionais e pessoas públicas.

·  TychoBrahe: Honestly, I have no idea who reads them. Hopefully a very small group of very forgiving people!   

(Honestamente, eu não tenho ideia de quem os ler. Espero um grupo muito pequeno de pessoas muito perdoativas)  

Há também o caso daqueles que reconhecem a sua atual audiência, mas não as veem como uma audiência intencional.  Nesta situação é citado o exemplo de Jason Goldman um empregado do Twitter que diz não pensar em audiência, mas às vezes pensa em sua namorada, colegas de trabalho e na sua mãe. Para ele, se pensasse em audiência antes de twitar seu tweets não se mostrariam verdadeiros. 
As autoras concluem este subtópico lembrando que a variedade de audiências imaginárias deriva das diversas maneiras em que o Twitter é utilizado. Seja como meio de transmissão, diário, canal de marketing, plataforma social ou fonte de notícias. Trata-se de uma audiência de concepção abstrata e variada entre os usuários do Twitter em parte porque é muito difícil verificar quem está ali.

Tópico 4 – Navegando em Audiências Múltiplas:

Como muitos sites de redes sociais, o Twitter nivela várias audiências em uma - um fenômeno conhecido como "colapso de contexto". A exigência de apresentação de uma identidade singular verificável torna impossível diferir estratégias de auto-apresentação, criando tensão à medida que diversos grupos de pessoas migram para sites de redes sociais (Boyd, 2008). As configurações de privacidade por si sós não resolvem isso, mesmo com contas privadas que apenas certas pessoas podem ler, os participantes têm que lidar com grupos de pessoas que normalmente não reúnem, como conhecidos, amigos, colegas de trabalho e familiares. Para navegar por essas tensões, os usuários do site de redes sociais adotam uma variedade de táticas, como o uso de várias contas, pseudônimos e apelidos, e criam os ‘fakesters’ para encobrir suas identidades reais (Marwick, 2005). As grandes audiências para sites como o Facebook ou MySpace podem criar um efeito de menor denominador comum, como indivíduos só postarem coisas que eles acham que o

mais amplo grupo de conhecidos verá como não-ofensivas. Da mesma forma, os usuários do twitter gerenciam estrategicamente audiências múltiplas e sobrepostas, escondendo informações, dirigindo os tweets para diferentes públicos e tentando retratar tanto um self autêntico quanto uma personalidade interessante.


4.1 – A Necessidade de Navegar - As autoras questionam por que os usuários precisam navegar em multiplicidade e recorrem a Erving Goffman (1959) em seu trabalho seminal “A apresentação do self na vida cotidiana” para buscar uma resposta. Goffman conceituou a identidade como uma performance contínua, que em alguns momentos lança mão de algumas estratégias de palco e em outros aciona dinâmicas de bastidores. Nesta perspectiva, seríamos todos atores, adaptando nossa auto-apresentação com base no contexto e na plateia. É como se as estratégias de palco estivessem associadas ao self público e as de bastidores, ao self privado, pois – de acordo com as autoras – é nos bastidores que as conversas mais sinceras acontecem.
 O trabalho de Goffman é freqüentemente classificado como interacionismo simbólico, uma perspectiva sociológica que sustenta que o significado é construído através da interação, linguagem e interpretação (Blumer, 1962; Strauss, 1993). O Interacionismo Simbólico afirma que a identidade e o self são constituídos através de interações constantes com os outros -principalmente conversas. Em outras palavras, a auto-apresentação é colaborativa. Indivíduos trabalham juntos para defender  auto-imagens preferenciais de si mesmos e seus parceiros de conversação, através de estratégias como a manutenção (ou 'salvamento') da imagem (face),  incentivando coletivamente as normas sociais, ou negociando os diferenciais de poder e divergências.
No cenário de hoje saturado de mídia, políticos e celebridades usam 'polissemia' ou comunicação codificada, apelando simultaneamente para diferentes públicos, mesmo de oposição (Albertson, 2006; Fiske, 1989). A imagem inicial de Madonna exemplifica a polissemia. Ela foi interpretada de forma diferente por mulheres jovens, que responderam as mensagens feministas dela; e homens jovens, que responderam a sua persona sexy (Fiske, 1989). Da mesma forma, George W. Bush espalhou referências codificadas de hinos, versículos bíblicos e cultura evangélica em seus discursos para apelar à sua base sem alienar os outros (Albertson, 2006).

4.2 – Equilibrando as Expectativas da Audiência – Para as pesquisadoras, o público imaginado afeta a forma como as pessoas twittam. Pessoas com poucos seguidores, que utilizam o site por outros motivos que não a auto-promoção, em geral, vêem o Twitter como um espaço pessoal onde spam, publicidade e marketing são bem-vindos. Seguindo o paradigma do Interacionismo Simbólico, a identidade no Twitter é construída através de conversas com os outros. Os tweets são formulados parcialmente  com base em um contexto social construído a partir dos tweets de pessoas que se segue. Os participantes devem manter o equilíbrio entre uma norma social contextual de autenticidade pessoal que incentiva a partilha de informação e a comunicação fática (a tão citada ‘o que eu tomei no café da manhã’, por exemplo) com a necessidade de manter as informações privadas, ou pelo menos escondidas de certos públicos. A tensão entre revelar e esconder geralmente erra no lado de esconder no Twitter, mas até mesmo usuários que não postam nada escandaloso devem formular tweets e escolher os temas de discussão com base em julgamento público imaginário. Essa consciência implica no desempenho de uma identidade de palco em curso que equilibra o desejo de manter impressões positivas com a necessidade de parecer verdadeiro ou autêntico com os outros.


4.3 – Auto-censura – De acordo com Marwick e Boyd, as preocupações com o trabalho influenciaram tanto o que as pessoas twittaram  quanto o que elas auto-censuraram. Por exemplo, uma freelancer disse: "Eu sempre mantenho meus clientes em mente. Quero transmitir inteligência e profissionalismo e diversidade - Eu quero ser vista como interessada em um monte de coisas." Ela poderia apresentar-se contra o contexto social de um público imaginado de outros profissionais. Participantes do twitter mantêm uma persona pública para gerenciar as impressões com potenciais leitores. O ‘colapso de contexto’ cria um público que muitas vezes é imaginado como seus membros mais sensíveis: pais, parceiros e chefes. Este “leitor pesadelo” é o oposto do “leitor ideal” e pode limitar o discurso pessoal no Twitter, uma vez que a filosofia de compartilhamento do menor denominador comum  limita os usuários aos tópicos que são seguros para todos os leitores possíveis. Enquanto as pessoas falam sobre temas polêmicos no Twitter, os entrevistados para este estudo mostraram que alguns são

mais propensos a evitar temas pessoais que implicam uma verdadeira intimidade e conexão entre os seguidores. Em vez disso, eles podem moldar o Twitter como um lugar onde as normas mais rígidas são aplicáveis.



4.4 – Equlíbrio – As autoras mostram, através dos depoimentos com participantes do Twitter, que alcançar o equilíbrio nas redes sociais é complicado. Para tentar manter a atenção dos seguidores, alguns dos participantes utilizam técnicas da comunicação polissêmica e codificada para gerenciamento de imagem de especialistas. Micro-celebridade,  uma prática   aprendida e apoiada pela infra-estrutura das mídias sociais, pode criar tensão. O modelo de amizade dirigida do Twitter substitui 'amigos' por seguidores e exibe o número de seguidores na página do Twitter de cada pessoa, criando um status social de métrica quantificável. Práticas de Micro-celebridades como interagir diretamente com os seguidores, apelando para vários públicos, criando uma afável marca e partilha de informação pessoal são recompensadas ​​e, conseqüentemente, encorajadas, na Cultura do Twitter. A capacidade de atrair e direcionar atenção torna-se um símbolo de status.

Ao mesmo tempo, a prática de micro-celebridade  pode ser vista como não autêntica. 


Tópico 5 – Da Difusão à Rede:
O Twitter é um exemplo de tecnologia com um público em rede. Audiências da mídia são sempre imaginárias, se existirem na mente do escritor ou como os alvos demográficos de uma sitcom. Mas, enquanto Fiske (1989) argumenta que o público da difusão é uma ficção para servir as necessidades das instituições de mídia, a audiência do escritor  serve ao escritor. Estes dois modelos de público ajudam a contextualizar a audiência em rede e seu impacto sobre o comportamento social online.  A mídia em rede traz as mudanças que Meyrowitz (1985) descreveu para as interações interpessoais. Em sites como Twitter e Facebook, os contextos sociais que se costumava imaginar como separados co-existem como as partes da rede. As pessoas aprendem como gerenciar as tensões entre o ‘público’ e o ‘privado’, o ‘de casa’ e o ‘estrangeiro’, e as performances ‘no palco’ e ‘nos bastidores’. Eles aprendem práticas de micro-celebridade que podem ser usadas para manter o interesse público. Mas, o Twitter faz com que alguns conflitos inerentes fiquem visíveis. Por um lado, o Twitter é visto como um espaço autêntico de interação pessoal. Por outro, as preocupações com normas sociais contra o "oversharing” e com a privacidade significam que informações consideradas muito pessoais podem ser retiradas das interações potenciais. Da mesma forma, o desejo de ter 'fãs' ou uma "marca pessoal" conflita com o desejo de pura auto-expressão e íntimas ligações com os outros. Desta forma, fica claro que ao combinar interações públicas e interpessoais, o público em rede cria novas oportunidades de conexão, mas também, novas tensões e conflitos.