terça-feira, 10 de abril de 2012

Fichamento - Novas mídias e redes sociais digitais

Texto: BOYD, D. Social Network Sites as Networked Publics. In PAPACHARISSI, Zizi (ed.). A Networked Self: Identity, community, and culture on Social Network Sites. New York: Routledge, 2011(p. 48-67).

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Por Pedro Cordier e Sílvia Dantas

Sobre o autor:
BOYD, D. M. é pesquisadora sênior da Microsoft Pesquisas, Professora Assistente e
pesquisadora em Mídia, Cultura e Comunicação na Universidade de Nova York, pesquisadora visitante na Harvard Law School, fellow no Harvard's Berkman Center, professora adjunta na Universidade de Nova South Wales.
Desenvolve estudos centrados em como os jovens usam a mídia social em suas práticas
cotidianas. Examina como meios de comunicação social, as práticas da juventude, as tensões
entre público e privado, sites de redes sociais e outras interseções entre tecnologia e sociedade. http://www.danah.org/

Objetivos do capítulo: Observando as dinâmicas sociais nos espaços públicos nas redes sociais a partir de uma etnografia, o texto mostra diversas particularidades estruturais do meio online e como essas particularidades interferem nas interações humanas, tendo como objetivo, mapear a arquitetura de públicos em rede e mostrar como as affordances desses públicos são informadas pelas propriedades de bits, destacando as dinâmicas comuns que surgem a partir dessas possibilidades. Uma outra abordagem encontrada no texto foi a identificação de pontos de convergência e divergência entre as interações mediadas por computador e tal dimensão física, tudo discutido a partir de conceitos como “público” e “privado”.

Argumentação Central: O compartilhamento de informações, não só por parte de profissionais, mas, pelos públicos em rede, que são reestruturados pelas tecnologias em rede e passam a ser, simultaneamente, o espaço construído através das redes online e o coletivo imaginado, que emerge como resultado da interseção entre as pessoas, tecnologia e prática, permitindo às pessoas se reunirem para fins sociais, culturais e cívicas e se conectarem com um mundo que vai além dos seus amigos íntimos e familiares, possibilitando novas dinâmicas de interação. Compreender as propriedades, affordances e dinâmicas comuns a públicos em rede, constitui um quadro útil para trabalhar a lógica das práticas sociais.

Tópico 1 - Constituição dos públicos e públicos em rede: "Público" vem a ser um conjunto de pessoas que compartilham "uma compreensão comum do mundo, uma identidade compartilhada, uma reivindicação de inclusão, um consenso quanto ao interesse coletivo" (Livingstone, 2005, p. 9). Com base nisso, público pode ter diversas dimensões, desde um grupo de familiares até uma nação. No entanto, como Benedict Anderson (2006) argumenta, a noção de uma público é, em muitos aspectos uma "comunidade imaginada". Estudos de mídia oferecem uma perspectiva diferente sobre a noção de que constitui um público. O público produzido pela mídia é, muitas vezes por sua própria natureza um público, mas não necessariamente, passivo. Segundo Mizuko Ito, "públicos podem ser reatores, (re) criadores e (Re) distribuidores, da prática de cultura e conhecimento compartilhadas por meio do discurso e troca social, bem como através de atos de recepção de mídia "(Ito, 2008, p. 3). Nancy Fraser afirma que os públicos não são apenas um site do discurso e da opinião, mas "arenas para a formação e representação das identidades sociais "(Fraser, 1992). Mizuko Ito introduz ainda, a noção de que os públicos em rede possam "fazer referência a um conjunto articulado de desenvolvimento social, cultural e tecnológico que têm acompanhado o crescente compromisso com a versão preliminar digital em rede. Em suma, os públicos em rede são públicos que são reestruturados pelas tecnologias em rede, que são, simultaneamente, um espaço e um conjunto de pessoas.

Tópico 2 - Como se formam as propriedades de Bits e Átomos: No senso comum, a arquitetura tipicamente evoca a imagem do desenho de estruturas físicas, edifícios, estradas, jardins e espaços, mesmo. A arquitetura é vista, muitas vezes, como parte da engenharia e configurada, socialmente, como algo projetado para ser funcional, esteticamente agradável, e influente na forma como as pessoas interagem umas com as outras.  A palavra arquitetura também é usada em círculos técnicos par ase referir à organização de códigos que produz ambientes digitais. A arquitetura também pode servir como uma lente conceitual importante, através da qual se pode compreender as diferenças estruturais nas tecnologias em relação à prática (Papacharissi, 2009). Porém, as estruturas físicas são uma coleção de átomos, enquanto estruturas digitais são construídas a partir de bits. As propriedades subjacentes de bits e átomos, fundamentalmente distinguem estes dois tipos de ambientes, definindo quais os tipos de interações são possíveis, e a forma como as pessoas se envolvem nesses espaços. Ao olhar para como o código configura os ambientes digitais, tanto Mitchell quanto Lessig destacam as formas pelas quais as arquiteturas digitais são forças estruturais. A diferença entre bits e átomos como blocos de construção de arquitetura é fundamental para as maneiras pelas quais públicos em rede são construídos de forma diferente dos outros públicos. Nicholas Negroponte (1995) mapeou algumas diferenças fundamentais entre bits e átomos para argumentar que a digitalização poderia alterar radicalmente a paisagem de informação e mídia. Ele destacou que os bits podem ser facilmente duplicados, comprimidos e transmitidos através de fios; uma mídia que é construída a partir de bits está mais para uma versão em rascunho. Mitchell (1995) argumentou que os bits não simplesmente mudam o fluxo de informações, mas elas alteram a arquitetura da vida cotidiana. Através de tecnologia de rede, as pessoas já não são moldadas apenas pelas suas habitações, mas por suas redes (Mitchell, 1995, p. 49). Públicos em rede não são apenas públicos interligados em rede, mas são públicos que foram transformadas pela mídia em rede, suas propriedades e seu potencial.

Tópico 3 - Características dos sites de redes sociais: Sites de redes sociais são semelhantes a muitos outros gêneros de mídias sociais e comunidades online que suportam comunicação mediada por computador, mas, o que define esta determinada categoria de sites é a combinação de características que permitem aos indivíduos construir um perfil público ou semi-público dentro de um sistema limitado, articular uma lista de outros usuários com quem compartilhar uma conexão e percorrer conexões feitas por outros dentro do sistema (boyd e Ellison, 2007). Quatro tipos de recursos desempenham um papel de destaque na construção de sites de redes sociais como rede públicos: perfis, listas de amigos públicas, ferramentas de comunicação pública e fluxo baseado em atualizações. Estas características diferentes mostram como os bits são integrados à arquitetura de públicos em rede. Os perfis não são exclusivos para sites de redes sociais, mas, são fundamentais para as pessoas, conscientemente, criarem seus perfis para serem vistos pelos outros. Além de ser um espaço de auto-representação, os perfis são um lugar onde as pessoas se reúnem para conversar e compartilhar. Como resultado, os participantes não têm completo controle sobre a sua auto-representação. Embora os perfis do site de rede social possa ser acessível a qualquer um - "verdadeiramente público" - é comum para os participantes limitar a visibilidade de seus perfis, tornando-os semi-públicos. Em sites de redes sociais, os participantes articulam com quem deseja se ligar e confirmar laços com aqueles que desejam se conectar com eles. Essas ligaçoes precisam ser mutuamente confirmadas antes de serem exibidas. Essa lista é visível para qualquer pessoa que tem permissão para ver o perfil dessa pessoa e é tanto política quanto social. A maioria dos participantes incluem todos os que eles consideram uma parte de seu mundo social. Isto pode incluir amigos atuais e passados, conhecidos como laços periféricos, ou pessoas que o participante mal conhece, mas se sente compelido a incluir. Esses participantes esperam ter seu conteúdo acessado e interagir com essas pessoas. A lista de amigos serve como o público pretendido. A ferramenta mais comumente utilizada para encontros públicos são aquelas destinadas aos comentários, recursos que exibem conversas no perfil de uma pessoa. Os comentários são visíveis para qualquer pessoa que tenha acesso a esse perfil da pessoa e os participantes usam este espaço para interagir com indivíduos e escalões etários. Através de comentários mundanos, os participantes estão reconhecendo um ao outro em um público como se saudassem uns aos outros quando se encontram na rua. Os comentários não são simplesmente um diálogo entre dois interlocutores, mas um desempenho de conexão social diante de um público mais amplo. Ao fazer isso, os participantes tem a sensação do público construído por aqueles com quem eles se conectam. Juntos, perfis, listas de amigos e os vários canais de comunicação públicos, definem o palcoe para as maneiras pelas quais sites de redes sociais podem ser entendidas como públicos.

Tópico 4 - Affordances estruturais dos públicos em rede: Tecnologias de rede introduzem novas affordances para a gravação, amplificação e divulgação de informações e ações sociais. Estas affordances podem moldar públicos e negociá-los. Elas podem remodelar públicos tanto diretamente como através das práticas que as pessoas desenvolvem diante das possibilidades. Quatro affordances que emergem das propriedades dos bits, desempenham um papel significativo na configuração dos públicos em rede:
Persistência: expressões on-line são automaticamente gravadas e arquivadas - Enquanto as conversas faladas são efêmeras, inúmeras tecnologias e técnicas têm sido desenvolvidos para capturar os momentos e torná-los persistente. Tecnologias da Internet seguem uma longa linha de inovações nesta área. O que é capturado e gravado são os bytes que são criados e trocados através da rede. Entendemos o que foi produzido como produzido pela primeira vez? Isto é bastante improvável. O texto e a multimídia podem ser persistentes, mas, podem perder a sua essência quando consumidos contexto em que foi criado.
Replicação: conteúdo feito de bits pode ser duplicado - A imprensa transformou a escrita porque permitiu a fácil reprodução do notícias e informações, aumentando a circulação potencial de tal conteúdo (Eisenstein, 1980). Como bits podem ser reproduzidos mais facilmente do que os átomos, cópias são inerentes a estes sistemas. Num mundo de bits, não há maneira de diferenciar o bit original a partir do duplicado. E, porque bits pode ser facilmente modificado, o conteúdo pode ser transformado de maneira a dificultar a identificação de qual é a fonte e qual é a alteração.
Escalabilidade: a visibilidade potencial de conteúdos em rede públicos é grande - A tecnologia permite uma distribuição mais ampla, quer através do reforço que pode acessar o evento em tempo real ou alargamento do acesso às reproduções do momento. A Internet introduziu novas possibilidades para distribuição; os blogs só permitiram a ascensão do jornalismo popular (Gillmor, 2004). Porém, a propriedade de escalabilidade pode, não necessariamente, escalar o que as pessoas querem ter escalado ou o que eles acham que deve ser escalado, mas o que o coletivo escolheu para ampliar.
pesquisabilidade: conteúdo de públicos em rede podem ser acessados ​​através de busca - A introdução de pesquisa via motores de busca está radicalmente reformulando as maneiras pelas quais informações podem ser acessadas. Pesquisar tornou-se uma atividade comum entre os usuários da Internet. Pesquisas faz encontrar pessoas em públicos em rede através de GPS habilitado, dispositivos móveis e diversas outras práticas que vão se tornando parte de outros aspectos vida cotidiana.

Tópico 5 - Dinâmicas centrais nos públicos em rede: As affordances de públicos em rede introduzem uma nova dinâmica com a qual os participantes devem lidar. Muitas dessas dinâmicas não são novas, mas elas nunca foram tão geralmente experimentadas. Analisando como a mídia de transmissão transformou a cultura, Josué Meyrowitz (1985) articula que as propriedades dos meios alteram ambientes sociais e, assim, influenciam as pessoas e seu comportamento. Ele analisou que a transmissão de mídia e a capacidade de retrabalho, reconfigurada em escala pública, alterou os papéis que as pessoas desempenham na sociedade, complicando as fronteiras entre público e privado, desmoronandos contextos sociais distintos e rompendo a relevância do lugar físico em que circunscreve públicos. Três dinâmica desempenham um papel central na formação públicos em rede:
As audiências invisíveis: nem todas as audiências são visíveis quando uma pessoa está contribuindo online, nem são necessariamente co-presentes.
Contextos Recolhidos: a falta de limites espaciais, sociais e temporais, dificultm a manutenção de contextos sociais distintos.
As indefinições de público e privado: sem controle sobre o contexto, público e privado se tornam binários e sem sentido. São escalados de novas maneiras e são difíceis para manter como distintos.

Tópico 6 - Indefinição de público e privado: Onde estão os limites? Os públicos como rede permitem interações sociais em todos os níveis. O efeitos dessas dinâmicas são sentidos em níveis muito mais amplos do que os sentidos por meios de transmissão e a introdução de outras formas de comunicação para os públicos. Eles alteram práticas que são voltados para uma ampla visibilidade e complicam - e muitas vezes tornam pública - interações que nunca pretendeu ser verdadeiramente pública. Isso decorre da variedade de formas de mídia em rede que, como transmissão de mídia (Meyrowitz, 1985), confunde público e privado em formas complicadas. A privacidade está, simplesmente,  em um estado de transição, com as pessoas tentando fazer sentido na negociação das transformações estruturais resultantes da mídia em rede. As pessoas valorizam a privacidade, por razões diversas, incluindo a capacidade de ter controle sobre informações sobre si e sua própria visibilidade (Rossler, 2004, pp 6-8). Definir e controlar as fronteiras em torno público e privado pode ser bastante difícil em uma sociedade em rede, especialmente quando alguém está motivado para divulgar algo que é aparentemente privado ou quando a tecnologia dificulta a capacidade das pessoas para controlar acesso e visibilidade. Precisamos examinar as estratégias das pessoas para a negociação de versão preliminar de controle em face de condições estruturais que complicam a vida privada e repensar a nossa binária concepção de público e privado. Enquanto público e privado são, certamente, um fluxo, a privacidade dificilmente será simplesmente ignorada.

Tópico 7 - Transformação de públicos: As mudanças trazidas pelas tecnologias de rede são mais difundidas do que os de mídias anteriores. Como o conteúdo e as expressões trazidas pelos públicos em rede é persistente e replicável por padrão, a possibilidade de atos sendo escalado, achado, e assim, visto, é intensificado. Espaços físicos são limitados pelo espaço e pelo tempo, mas, online, as pessoas podem ligar uns aos outros através de grandes distâncias e se envolver assincronamente com conteúdo produzido ao longo de períodos prolongados. Isto permite às pessoas, trabalhar em torno de barreiras físicas e reduz o custo de interagir com pessoas em lugares distantes. No entanto, ao mesmo tempo, muitas pessoas são desmotivado para interagir com estranhos distantes; sua atenção está focada no que os rodeiam. Andy Warhol argumentou mídia que a massa garantiria que, "no futuro todo mundo será famoso por quinze minutos" (Hirsch et al., 2002). No entanto, num ambiente em que o teor produzido por amigos se envolve, dentro das mesmas tecnologias, com observação das loucuras de uma celebridade, os indivíduos encontram-se incorporados na economia da atenção, como consumidores e produtores. Enquanto as novas mídias podem ser reproduzidas e ampliadas, isso não aborda as maneiras pelas quais a atenção é um recurso limitado. Aqueles que utilizam meios de rede para contribuir com a divulgação de notícias seletivamente, podem amplificar histórias introduzidas por meios de comunicação tradicionais, replicando em focos culturais (Zuckerman, 2008). Embora a rede de apoio públicos aja na divulgação em massa, a dinâmica de "contágio de mídia" (Marlow, 2005) mostra que o espalhamento depende da estrutura social subjacente aos públicos em rede. Em outras palavras, escalabilidade é dependente mais do que apenas das propriedades de bits.

Tópico 8 - Implicações para a Análise: As affordances de públicos em rede e as dinâmicas que emergem são resultantes  e transformam os públicos. Assim, a dinâmica mapeada aqui, não irá simplesmente ser constrangida para o domínio do mundo digital, mas será parte da vida cotidiana. A ascensão de sites de rede social introduziu populações cada vez maiores para as provações e tribulações de navegar enquanto públicos em rede. Muitas das lutas que tomam lugar em sites de redes sociais são moldadas pelas propriedades de bits, as affordances da versão preliminar. Participantes estão implícita e explicitamente concorrendo com estas affordances e dinâmicas como uma parte central de sua participação. Em essência, as pessoas estão aprendendo a trabalhar dentro das limitações e possibilidades da arquitetura mediada e a navegar em estruturas como parte de suas vidas diárias.

Tópico 9 - Conclusões: As abordagens de Boyd, concentram-se nas maneiras com que as tecnologias em rede se estendem e abrangem os públicos em todas as suas formas. O que distingue públicos em rede a partir de outros tipos de públicos é a sua estrutura subjacente. Tecnologias em rede, reorganizam o público, como a informação flui e como as pessoas interagem com a informação e com as outras. Em essência, a arquitetura dos públicos em rede os diferencia das mais tradicionais noções de públicos. Em relação às propriedades de bits, elas regulam a estrutura dos públicos em rede, o qual, por sua vez, introduzem novas práticas e formas possíveis às interações que ocorrem, o que pode ser visto na arquitetura de todos os públicos em rede, incluindo sites de redes sociais. Em relação aos sites de redes sociais, são públicos, tanto por causa das maneiras pelas quais eles se conectam pessoas em massa e por causa do espaço que proporcionam para interações e informações. Eles são públicos em rede por causa das maneiras com que se formam e como são configurados pelas redes de tecnologias. Os adolescentes podem fazer e desenvolver estratégias para a gestão das complexidades sociais destes ambientes. Em alguns aspectos, os adolescentes estão mais preparados para abraçar públicos em rede, porque muitos estão vivendo essa época e vivenciando suas affordances. Adultos, por outro lado, muitas vezes encontram os deslocamentos provocadas por públicos em rede como sendo confuso e desconfortável, porque eles são mais agudamente conscientes das maneiras pelas quais as suas experiências com a vida pública estão mudando. No entanto, mesmo os adultos estão se ajustando a essas mudanças e desenvolvendo as suas próprias abordagens para reconfigurar a tecnologia para atender suas necessidades. Como sites de redes sociais e outros gêneros emergentes da mídia social se tornam dominantes, as affordances e dinâmicas de públicos em rede podem lançar luz sobre por que as pessoas se envolvem e sobre a forma como eles fazem. Assim, tendo os elementos estruturais de públicos em rede em conta ao analisar o que se desenrola pode fornecer um valioso quadro interpretativo.

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