terça-feira, 10 de abril de 2012

Fichamento - Novas mídias e redes sociais digitais

Texto: BOYD, D. Social Network Sites as Networked Publics. In PAPACHARISSI, Zizi (ed.). A Networked Self: Identity, community, and culture on Social Network Sites. New York: Routledge, 2011(p. 48-67).

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Por Pedro Cordier e Sílvia Dantas

Sobre o autor:
BOYD, D. M. é pesquisadora sênior da Microsoft Pesquisas, Professora Assistente e
pesquisadora em Mídia, Cultura e Comunicação na Universidade de Nova York, pesquisadora visitante na Harvard Law School, fellow no Harvard's Berkman Center, professora adjunta na Universidade de Nova South Wales.
Desenvolve estudos centrados em como os jovens usam a mídia social em suas práticas
cotidianas. Examina como meios de comunicação social, as práticas da juventude, as tensões
entre público e privado, sites de redes sociais e outras interseções entre tecnologia e sociedade. http://www.danah.org/

Objetivos do capítulo: Observando as dinâmicas sociais nos espaços públicos nas redes sociais a partir de uma etnografia, o texto mostra diversas particularidades estruturais do meio online e como essas particularidades interferem nas interações humanas, tendo como objetivo, mapear a arquitetura de públicos em rede e mostrar como as affordances desses públicos são informadas pelas propriedades de bits, destacando as dinâmicas comuns que surgem a partir dessas possibilidades. Uma outra abordagem encontrada no texto foi a identificação de pontos de convergência e divergência entre as interações mediadas por computador e tal dimensão física, tudo discutido a partir de conceitos como “público” e “privado”.

Argumentação Central: O compartilhamento de informações, não só por parte de profissionais, mas, pelos públicos em rede, que são reestruturados pelas tecnologias em rede e passam a ser, simultaneamente, o espaço construído através das redes online e o coletivo imaginado, que emerge como resultado da interseção entre as pessoas, tecnologia e prática, permitindo às pessoas se reunirem para fins sociais, culturais e cívicas e se conectarem com um mundo que vai além dos seus amigos íntimos e familiares, possibilitando novas dinâmicas de interação. Compreender as propriedades, affordances e dinâmicas comuns a públicos em rede, constitui um quadro útil para trabalhar a lógica das práticas sociais.

Tópico 1 - Constituição dos públicos e públicos em rede: "Público" vem a ser um conjunto de pessoas que compartilham "uma compreensão comum do mundo, uma identidade compartilhada, uma reivindicação de inclusão, um consenso quanto ao interesse coletivo" (Livingstone, 2005, p. 9). Com base nisso, público pode ter diversas dimensões, desde um grupo de familiares até uma nação. No entanto, como Benedict Anderson (2006) argumenta, a noção de uma público é, em muitos aspectos uma "comunidade imaginada". Estudos de mídia oferecem uma perspectiva diferente sobre a noção de que constitui um público. O público produzido pela mídia é, muitas vezes por sua própria natureza um público, mas não necessariamente, passivo. Segundo Mizuko Ito, "públicos podem ser reatores, (re) criadores e (Re) distribuidores, da prática de cultura e conhecimento compartilhadas por meio do discurso e troca social, bem como através de atos de recepção de mídia "(Ito, 2008, p. 3). Nancy Fraser afirma que os públicos não são apenas um site do discurso e da opinião, mas "arenas para a formação e representação das identidades sociais "(Fraser, 1992). Mizuko Ito introduz ainda, a noção de que os públicos em rede possam "fazer referência a um conjunto articulado de desenvolvimento social, cultural e tecnológico que têm acompanhado o crescente compromisso com a versão preliminar digital em rede. Em suma, os públicos em rede são públicos que são reestruturados pelas tecnologias em rede, que são, simultaneamente, um espaço e um conjunto de pessoas.

Tópico 2 - Como se formam as propriedades de Bits e Átomos: No senso comum, a arquitetura tipicamente evoca a imagem do desenho de estruturas físicas, edifícios, estradas, jardins e espaços, mesmo. A arquitetura é vista, muitas vezes, como parte da engenharia e configurada, socialmente, como algo projetado para ser funcional, esteticamente agradável, e influente na forma como as pessoas interagem umas com as outras.  A palavra arquitetura também é usada em círculos técnicos par ase referir à organização de códigos que produz ambientes digitais. A arquitetura também pode servir como uma lente conceitual importante, através da qual se pode compreender as diferenças estruturais nas tecnologias em relação à prática (Papacharissi, 2009). Porém, as estruturas físicas são uma coleção de átomos, enquanto estruturas digitais são construídas a partir de bits. As propriedades subjacentes de bits e átomos, fundamentalmente distinguem estes dois tipos de ambientes, definindo quais os tipos de interações são possíveis, e a forma como as pessoas se envolvem nesses espaços. Ao olhar para como o código configura os ambientes digitais, tanto Mitchell quanto Lessig destacam as formas pelas quais as arquiteturas digitais são forças estruturais. A diferença entre bits e átomos como blocos de construção de arquitetura é fundamental para as maneiras pelas quais públicos em rede são construídos de forma diferente dos outros públicos. Nicholas Negroponte (1995) mapeou algumas diferenças fundamentais entre bits e átomos para argumentar que a digitalização poderia alterar radicalmente a paisagem de informação e mídia. Ele destacou que os bits podem ser facilmente duplicados, comprimidos e transmitidos através de fios; uma mídia que é construída a partir de bits está mais para uma versão em rascunho. Mitchell (1995) argumentou que os bits não simplesmente mudam o fluxo de informações, mas elas alteram a arquitetura da vida cotidiana. Através de tecnologia de rede, as pessoas já não são moldadas apenas pelas suas habitações, mas por suas redes (Mitchell, 1995, p. 49). Públicos em rede não são apenas públicos interligados em rede, mas são públicos que foram transformadas pela mídia em rede, suas propriedades e seu potencial.

Tópico 3 - Características dos sites de redes sociais: Sites de redes sociais são semelhantes a muitos outros gêneros de mídias sociais e comunidades online que suportam comunicação mediada por computador, mas, o que define esta determinada categoria de sites é a combinação de características que permitem aos indivíduos construir um perfil público ou semi-público dentro de um sistema limitado, articular uma lista de outros usuários com quem compartilhar uma conexão e percorrer conexões feitas por outros dentro do sistema (boyd e Ellison, 2007). Quatro tipos de recursos desempenham um papel de destaque na construção de sites de redes sociais como rede públicos: perfis, listas de amigos públicas, ferramentas de comunicação pública e fluxo baseado em atualizações. Estas características diferentes mostram como os bits são integrados à arquitetura de públicos em rede. Os perfis não são exclusivos para sites de redes sociais, mas, são fundamentais para as pessoas, conscientemente, criarem seus perfis para serem vistos pelos outros. Além de ser um espaço de auto-representação, os perfis são um lugar onde as pessoas se reúnem para conversar e compartilhar. Como resultado, os participantes não têm completo controle sobre a sua auto-representação. Embora os perfis do site de rede social possa ser acessível a qualquer um - "verdadeiramente público" - é comum para os participantes limitar a visibilidade de seus perfis, tornando-os semi-públicos. Em sites de redes sociais, os participantes articulam com quem deseja se ligar e confirmar laços com aqueles que desejam se conectar com eles. Essas ligaçoes precisam ser mutuamente confirmadas antes de serem exibidas. Essa lista é visível para qualquer pessoa que tem permissão para ver o perfil dessa pessoa e é tanto política quanto social. A maioria dos participantes incluem todos os que eles consideram uma parte de seu mundo social. Isto pode incluir amigos atuais e passados, conhecidos como laços periféricos, ou pessoas que o participante mal conhece, mas se sente compelido a incluir. Esses participantes esperam ter seu conteúdo acessado e interagir com essas pessoas. A lista de amigos serve como o público pretendido. A ferramenta mais comumente utilizada para encontros públicos são aquelas destinadas aos comentários, recursos que exibem conversas no perfil de uma pessoa. Os comentários são visíveis para qualquer pessoa que tenha acesso a esse perfil da pessoa e os participantes usam este espaço para interagir com indivíduos e escalões etários. Através de comentários mundanos, os participantes estão reconhecendo um ao outro em um público como se saudassem uns aos outros quando se encontram na rua. Os comentários não são simplesmente um diálogo entre dois interlocutores, mas um desempenho de conexão social diante de um público mais amplo. Ao fazer isso, os participantes tem a sensação do público construído por aqueles com quem eles se conectam. Juntos, perfis, listas de amigos e os vários canais de comunicação públicos, definem o palcoe para as maneiras pelas quais sites de redes sociais podem ser entendidas como públicos.

Tópico 4 - Affordances estruturais dos públicos em rede: Tecnologias de rede introduzem novas affordances para a gravação, amplificação e divulgação de informações e ações sociais. Estas affordances podem moldar públicos e negociá-los. Elas podem remodelar públicos tanto diretamente como através das práticas que as pessoas desenvolvem diante das possibilidades. Quatro affordances que emergem das propriedades dos bits, desempenham um papel significativo na configuração dos públicos em rede:
Persistência: expressões on-line são automaticamente gravadas e arquivadas - Enquanto as conversas faladas são efêmeras, inúmeras tecnologias e técnicas têm sido desenvolvidos para capturar os momentos e torná-los persistente. Tecnologias da Internet seguem uma longa linha de inovações nesta área. O que é capturado e gravado são os bytes que são criados e trocados através da rede. Entendemos o que foi produzido como produzido pela primeira vez? Isto é bastante improvável. O texto e a multimídia podem ser persistentes, mas, podem perder a sua essência quando consumidos contexto em que foi criado.
Replicação: conteúdo feito de bits pode ser duplicado - A imprensa transformou a escrita porque permitiu a fácil reprodução do notícias e informações, aumentando a circulação potencial de tal conteúdo (Eisenstein, 1980). Como bits podem ser reproduzidos mais facilmente do que os átomos, cópias são inerentes a estes sistemas. Num mundo de bits, não há maneira de diferenciar o bit original a partir do duplicado. E, porque bits pode ser facilmente modificado, o conteúdo pode ser transformado de maneira a dificultar a identificação de qual é a fonte e qual é a alteração.
Escalabilidade: a visibilidade potencial de conteúdos em rede públicos é grande - A tecnologia permite uma distribuição mais ampla, quer através do reforço que pode acessar o evento em tempo real ou alargamento do acesso às reproduções do momento. A Internet introduziu novas possibilidades para distribuição; os blogs só permitiram a ascensão do jornalismo popular (Gillmor, 2004). Porém, a propriedade de escalabilidade pode, não necessariamente, escalar o que as pessoas querem ter escalado ou o que eles acham que deve ser escalado, mas o que o coletivo escolheu para ampliar.
pesquisabilidade: conteúdo de públicos em rede podem ser acessados ​​através de busca - A introdução de pesquisa via motores de busca está radicalmente reformulando as maneiras pelas quais informações podem ser acessadas. Pesquisar tornou-se uma atividade comum entre os usuários da Internet. Pesquisas faz encontrar pessoas em públicos em rede através de GPS habilitado, dispositivos móveis e diversas outras práticas que vão se tornando parte de outros aspectos vida cotidiana.

Tópico 5 - Dinâmicas centrais nos públicos em rede: As affordances de públicos em rede introduzem uma nova dinâmica com a qual os participantes devem lidar. Muitas dessas dinâmicas não são novas, mas elas nunca foram tão geralmente experimentadas. Analisando como a mídia de transmissão transformou a cultura, Josué Meyrowitz (1985) articula que as propriedades dos meios alteram ambientes sociais e, assim, influenciam as pessoas e seu comportamento. Ele analisou que a transmissão de mídia e a capacidade de retrabalho, reconfigurada em escala pública, alterou os papéis que as pessoas desempenham na sociedade, complicando as fronteiras entre público e privado, desmoronandos contextos sociais distintos e rompendo a relevância do lugar físico em que circunscreve públicos. Três dinâmica desempenham um papel central na formação públicos em rede:
As audiências invisíveis: nem todas as audiências são visíveis quando uma pessoa está contribuindo online, nem são necessariamente co-presentes.
Contextos Recolhidos: a falta de limites espaciais, sociais e temporais, dificultm a manutenção de contextos sociais distintos.
As indefinições de público e privado: sem controle sobre o contexto, público e privado se tornam binários e sem sentido. São escalados de novas maneiras e são difíceis para manter como distintos.

Tópico 6 - Indefinição de público e privado: Onde estão os limites? Os públicos como rede permitem interações sociais em todos os níveis. O efeitos dessas dinâmicas são sentidos em níveis muito mais amplos do que os sentidos por meios de transmissão e a introdução de outras formas de comunicação para os públicos. Eles alteram práticas que são voltados para uma ampla visibilidade e complicam - e muitas vezes tornam pública - interações que nunca pretendeu ser verdadeiramente pública. Isso decorre da variedade de formas de mídia em rede que, como transmissão de mídia (Meyrowitz, 1985), confunde público e privado em formas complicadas. A privacidade está, simplesmente,  em um estado de transição, com as pessoas tentando fazer sentido na negociação das transformações estruturais resultantes da mídia em rede. As pessoas valorizam a privacidade, por razões diversas, incluindo a capacidade de ter controle sobre informações sobre si e sua própria visibilidade (Rossler, 2004, pp 6-8). Definir e controlar as fronteiras em torno público e privado pode ser bastante difícil em uma sociedade em rede, especialmente quando alguém está motivado para divulgar algo que é aparentemente privado ou quando a tecnologia dificulta a capacidade das pessoas para controlar acesso e visibilidade. Precisamos examinar as estratégias das pessoas para a negociação de versão preliminar de controle em face de condições estruturais que complicam a vida privada e repensar a nossa binária concepção de público e privado. Enquanto público e privado são, certamente, um fluxo, a privacidade dificilmente será simplesmente ignorada.

Tópico 7 - Transformação de públicos: As mudanças trazidas pelas tecnologias de rede são mais difundidas do que os de mídias anteriores. Como o conteúdo e as expressões trazidas pelos públicos em rede é persistente e replicável por padrão, a possibilidade de atos sendo escalado, achado, e assim, visto, é intensificado. Espaços físicos são limitados pelo espaço e pelo tempo, mas, online, as pessoas podem ligar uns aos outros através de grandes distâncias e se envolver assincronamente com conteúdo produzido ao longo de períodos prolongados. Isto permite às pessoas, trabalhar em torno de barreiras físicas e reduz o custo de interagir com pessoas em lugares distantes. No entanto, ao mesmo tempo, muitas pessoas são desmotivado para interagir com estranhos distantes; sua atenção está focada no que os rodeiam. Andy Warhol argumentou mídia que a massa garantiria que, "no futuro todo mundo será famoso por quinze minutos" (Hirsch et al., 2002). No entanto, num ambiente em que o teor produzido por amigos se envolve, dentro das mesmas tecnologias, com observação das loucuras de uma celebridade, os indivíduos encontram-se incorporados na economia da atenção, como consumidores e produtores. Enquanto as novas mídias podem ser reproduzidas e ampliadas, isso não aborda as maneiras pelas quais a atenção é um recurso limitado. Aqueles que utilizam meios de rede para contribuir com a divulgação de notícias seletivamente, podem amplificar histórias introduzidas por meios de comunicação tradicionais, replicando em focos culturais (Zuckerman, 2008). Embora a rede de apoio públicos aja na divulgação em massa, a dinâmica de "contágio de mídia" (Marlow, 2005) mostra que o espalhamento depende da estrutura social subjacente aos públicos em rede. Em outras palavras, escalabilidade é dependente mais do que apenas das propriedades de bits.

Tópico 8 - Implicações para a Análise: As affordances de públicos em rede e as dinâmicas que emergem são resultantes  e transformam os públicos. Assim, a dinâmica mapeada aqui, não irá simplesmente ser constrangida para o domínio do mundo digital, mas será parte da vida cotidiana. A ascensão de sites de rede social introduziu populações cada vez maiores para as provações e tribulações de navegar enquanto públicos em rede. Muitas das lutas que tomam lugar em sites de redes sociais são moldadas pelas propriedades de bits, as affordances da versão preliminar. Participantes estão implícita e explicitamente concorrendo com estas affordances e dinâmicas como uma parte central de sua participação. Em essência, as pessoas estão aprendendo a trabalhar dentro das limitações e possibilidades da arquitetura mediada e a navegar em estruturas como parte de suas vidas diárias.

Tópico 9 - Conclusões: As abordagens de Boyd, concentram-se nas maneiras com que as tecnologias em rede se estendem e abrangem os públicos em todas as suas formas. O que distingue públicos em rede a partir de outros tipos de públicos é a sua estrutura subjacente. Tecnologias em rede, reorganizam o público, como a informação flui e como as pessoas interagem com a informação e com as outras. Em essência, a arquitetura dos públicos em rede os diferencia das mais tradicionais noções de públicos. Em relação às propriedades de bits, elas regulam a estrutura dos públicos em rede, o qual, por sua vez, introduzem novas práticas e formas possíveis às interações que ocorrem, o que pode ser visto na arquitetura de todos os públicos em rede, incluindo sites de redes sociais. Em relação aos sites de redes sociais, são públicos, tanto por causa das maneiras pelas quais eles se conectam pessoas em massa e por causa do espaço que proporcionam para interações e informações. Eles são públicos em rede por causa das maneiras com que se formam e como são configurados pelas redes de tecnologias. Os adolescentes podem fazer e desenvolver estratégias para a gestão das complexidades sociais destes ambientes. Em alguns aspectos, os adolescentes estão mais preparados para abraçar públicos em rede, porque muitos estão vivendo essa época e vivenciando suas affordances. Adultos, por outro lado, muitas vezes encontram os deslocamentos provocadas por públicos em rede como sendo confuso e desconfortável, porque eles são mais agudamente conscientes das maneiras pelas quais as suas experiências com a vida pública estão mudando. No entanto, mesmo os adultos estão se ajustando a essas mudanças e desenvolvendo as suas próprias abordagens para reconfigurar a tecnologia para atender suas necessidades. Como sites de redes sociais e outros gêneros emergentes da mídia social se tornam dominantes, as affordances e dinâmicas de públicos em rede podem lançar luz sobre por que as pessoas se envolvem e sobre a forma como eles fazem. Assim, tendo os elementos estruturais de públicos em rede em conta ao analisar o que se desenrola pode fornecer um valioso quadro interpretativo.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Questões enviadas pelos alunos relacionadas ao texto


BOYD, D. M;, ELLISON, N. B. Social network sites: Definition, history, and scholarship. Journal of Computer-Mediated Communication, 13(1), article 11, 2007.

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- O estudo acerca dos grupos e das relações intergrupais divide-se, na linha da psicologia social, em duas vertentes: os teóricos que compreendem um grupo enquanto unidade autônoma com pouca interferência do nível individual e, por outro lado, os de tradição mais individualista, que afirmam que a base para compreensão dos grupos é o indivíduo, em sua dimensão psicológica. Na rede, no entanto, o intermédio técnico possibilita interações que põem em xeque aspectos identitários que determinam a formação do sujeito. Isto é, trocando informações com pessoas de pontos distintos do planeta (diferentes contextos socioculturais), torna-se mais fácil assumir diversos papéis sociais na comunidade virtual. A questão que emerge deste contexto é se os meios de examinar a formação destes agrupamentos são de fato válidos, visto a dinamicidade na formação/dissolução destes grupos. Será que o modelo de etnografia virtual abrange um espectro geral ou se restringe ao grupo que investiga?


- “Somos aquilo que nos lembramos ter sido” (FILHO, 2009). Unindo esta citação à ideia de “persistência” dos networked publics, apresentados por Danah Boyd, é válido questionar: Como pensar a memória nos meios digitais, uma vez que ao armazenar dados na rede, há consequentemente a possibilidade de manipulação destas informações?

- “Quem sou eu a partir da perspectiva do outro”. “O outro pode nos dá um referencial sobre nós que não ‘conhecemos’, que não ‘sei’, que não ‘reconheço’”. “Gerenciamento de impressões pode remeter a idéia de falsear, esconder o que eu tenho de ‘ruim’ e evidenciar o que eu tenho de ‘legal’, mas o conceito não se refere a isto”. “Estratégias de gerenciamento de impressões: integração, auto-promoção, suplicação, justificativa e intimação. Usa-se estratégias diferentes a depender do ambiente, pois o(s) outro(s) também são diferentes”. Eu, o outro, estratégias, diferentes ambientes, gerenciamento etc. Nas redes sociais, ‘o real’ é aquilo que dizemos, apresentamos, postamos, compartilhamos? Ou ‘o real’ é aquilo que sabemos, ou julgamos que sabemos, que os outros esperam que digamos, apresentamos, postemos ou compartilhemos? 

- Nas redes sociais, quando crio diferentes ‘eus” (um eu para cada uma das redes sociais – Twitter, Facebook, Orkut, MSN – ou quando crio diferentes ‘eus’ dentro da mesma rede social) eu não estaria agindo da mesmíssima forma de como eu ago nos ambientes ‘reais’ (aqui, refiro-me aos diferentes papéis sociais que desempenhamos)? 

- Como podemos pensar as noções de "amigo" e de "amizade" diante desses sites de redes sociais que, a partir de uma dinâmica própria, vêm reconfigurando as relações sociais e inter-pessoais - nem sempre com base em valores - mas que muitas vezes revelam uma lógica quantitativa? É o fim da era do "melhor amigo"? No mundo contemporâneo, importa mais QUANTOS amigos você tem no Facebook? Por que será que alguns desses sites já substituíram o termo "amigo" por "seguidor"? Seria porque chamar de "amigo" pressupõe conversa e possibilidade de discordância? 

- Achei muito interessante a ideia que a autora destaca no texto de 2011 de que, nos públicos em rede, a atenção se transforma em uma commodity (p.53). Um determinado público deixa de ser um mero 'grupo' para alcançar o patamar de 'rede' quando consegue gerenciar os fluxos de atenção em benefício próprio?

- Utilizando a propriedade, “Scalabilit” listada por boyd , podemos refletir sobre casos recentes, nos quais o usuário de rede social  é incapaz de mensurar a repercussão e proporção que um simples comentário pode tomar?  – exemplo: Mayara Petruso.

- Até que ponto uma audiência invisível ou imaginada é capaz de moldar os hábitos e influenciar a construção e reconstrução de uma identidade na rede?  Uma audiência” invisível” pode ser plenamente diferente da audiência "real"?

- Pelo fato das SNS’s exporem para vários públicos diferenciados a vida social, tangível ou intangível, do indivíduo, como este gerencia as impressões provocadas pela sua imagem, considerando que a partir da imagem que o ser passa, há uma nova construção, que proporciona uma nova crença do que se é, em conseqüência, novas formas de impressão e novos critérios a serem avaliados pelo o outro como pertencente ou não, interessante ou não para sua rede?

- Como as novas networked publics com a interação entre pessoas, tecnologia e prática podem influenciar no capital social, formado pelo meio ambiente, capital físico, organização social e tecnologia, contribuindo para práticas de desenvolvimento sustentável?

- "O termo 'amigos' pode ser enganoso,porque a conexão não significa, necessariamente, a amizade, no sentido vernacular." (tradução livre). Partindo desta ideia, sugerida no texto de D. Boyd, Social network sites: definition, history and scholarship, qual seria a necessidade dos usuários das redes sociais em adicionar desconhecidos? Carência ou necessidade de plateia?

- Podemos dizer que os sites de redes sociais introduzem um novo entendimento dos tipos de laços criados entre os interagentes? 

- Os sites de redes sociais criam novas formas de sociabilidade ou apenas dão uma nova “cara” ao conceito de sociabilidade? 

- Quando pensamos a corporiedade, enquanto linguagem corporal (composta de seus próprios signos, significados, significantes) e não apenas um símbolo correlato inscrito no corpo (que pode ser entendido como a transcrição dos esquemas coginitivos na expressão linguageira); ela é passível de modelar e ser modelada pela mediação das práticas diante da arquitetura dos ambientes virtuais?

- Os aplicativos sociais (como ferramentas) podem ser pensados, numa aproximação conceitual com Foucault, como formas ou “dispositivos de controle” para construção, manutenção e manejo de discursos sócio-culturais na ambiência virtual? Ou talvez, numa outra aproximação conceitual, ser entendido como os “dispositivos analisadores” de Guattarri?

Fichamento - Novas mídias e redes sociais digitais


Texto: BOYD, D. M;, ELLISON, N. B. Social network sites: Definition, history, and scholarship. Journal of Computer-Mediated Communication, 13(1), article 11, 2007.

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Por Sílvia Dantas e Pedro Cordier


Sobre os autores:
BOYD, D. M. é pesquisadora sênior da Microsoft Pesquisas, Professora Assistente e pesquisadora em Mídia, Cultura e Comunicação na Universidade de Nova York, pesquisadora visitante na Harvard Law School, fellow no Harvard's Berkman Center, professora adjunta na Universidade de Nova South Wales.  

Desenvolve estudos centrados em como os jovens usam a mídia social em suas práticas cotidianas. Examina como meios de comunicação social, as práticas da juventude, as tensões entre público e privado, sites de redes sociais e outras interseções entre tecnologia e sociedade. http://www.danah.org/


ELLISON, N. B. é professora assistente do Departamento de Telecomunicações, Estudos de Informação e Mídia da Universidade do Estado de Michigan (EUA). Suas pesquisas têm girado em torno da compreensão das formas como as novas tecnologias de informação e comunicação moldam processos sociais (e como os processos sociais configuram as TICs). Ela tem estudado as implicações sociais dos sites de rede social e as questões de auto-apresentação, a formação e manutenção de relacionamentos e o gerenciamento de impressões em contextos online. Leciona na Universidade de Michigan as disciplinas Novas Midias, Velhas Mídias, Tecnologias da Informação e Organizações e Tópicos Especiais: as implicações sociais, culturais e psicológicas das comunicações mediadas por computador. Informações sobre publicações: https://www.msu.edu/~nellison/pubs.html.

Objetivos do capítulo:
Com base na revisão das principais pesquisas sobre Sites de Redes Sociais (SNSs), com ênfase naquelas reunidas no  Journal of Computer-Mediated Communication – muitos dos quais procuraram compreender as práticas, implicações, cultura e o significado destes sites, além de como as pessoas engajam-se neles –, as autoras pretendem, com este artigo, apresentar um conhecimento interdisciplinar sobre o tema. No texto, elas trazem uma definição sobre o que são SNS; uma trajetória histórica acerca de criação e expansão deste tipo de site (evolução e desenvolvimento), sumarizam sinteticamente o conhecimento já produzido sobre o tema e concluem com considerações para pesquisas futuras.

Argumentação Central:
Como fenômeno social emergente, os Sites de Redes Sociais (SNS) têm atraído a atenção de inúmeros pesquisadores, seja por seu alcance planetário, atraindo milhões de usuários em todo mundo; pelas transformações que provem em termos de sociabilidade, introduzindo-se muitas vezes no cotidiano dos seus usuários e influenciando seus comportamentos dentre e fora da internet; seja pela variedade de interesses, práticas e tecnologias que reúnem. 

Segundo as autoras, embora as características tecnológicas destes sites sejam similares, as culturas que emergem deles são as mais variadas possíveis. A maioria dos usuários usam as SNSs para conectar-se com pessoas que já conhece, mas há também aqueles que se unam a desconhecidos com base em interesses, atividades ou visões comuns. Muitos SNSs nasceram e continuam suportando/apoiando a manutenção e o fortalecimento de redes sociais pré-existentes. Uma parte dos SNSs é dirigido a audiências variadas; outros, reúne nichos de usuários, com base em afinidades raciais, sexuais, de linguagem, e mesmo territoriais.

Segundo constatam as autoras a partir da revisão blibliográfica, muitos usuários utilizam seus perfis e sua participação nos SNSs, suas conexões e a performance junto aos “amigos”, para construção de identidades e o gerenciamento de impressões sobre si.  A preocupação com privacidade e como se dá a concepção de “publico” e “ privado” nas redes virtuais também são questões que aguçam o interesse dos pesquisadores da área.  


Tópico 1 -  Sites de Redes Sociais: uma definição:
As autoras definem os SNSs como um serviço que permite aos usuários (1) construir perfis públicos e semi-públicos; (2) articular-se com outros usuários e (3) visualizar suas conexões e a de outros usuários. Segundo as autoras, diferente de outras formas de comunicação mediadas por computador (CMC), a prática principal da maioria dos SNSs tem sido a conexão entre pessoas que já se conhecem – e não entre estranhos. Por isto, elas adotam o termo network e não networking (mais comum para relações incipientes ou iniciais). O que torna os SNSs originais ou diferentes de outras formas de CMC é o fato de articular e dar visibilidade às redes sociais dos usuários. Citando o conceito de Haythornthwaite (2005) sobre “laços latentes”, estes sites possibilitam a conexão, o encontro de pessoas que já se conhecem mas que, provavelmente, não teriam como fazê-lo se não fosse via web. 

As autoras explicam como são construídos os perfis nas SNS, a partir do preenchimento de formulários com informações pessoais básicas, como idade, interesses, etc. Muitos dos sites permitem a inclusão de fotos e conteúdos multimídia, aplicativos (Facebook) e isto ajuda a incrementar, a dar maior visibilidade a este perfil, atraindo maior audiência para ele.

Boyd e Ellison argumentam que os sites de Redes Sociais diferenciam-se estruturalmente entre si em relação à forma de acesso e visibilidade aos perfis que possuem, citando as variações entre o Facebook, o LindkIn e o My Space.

A exposição publica das conexões dos usuários é dos aspectos mais cruciais nos SNSs.  Os serviços oferecidos para possibilitar a troca de mensagens e conteúdos entre os usuários também são essenciais, pois movimentam a rede reforçam as conexões entre eles (comentários, troca de mensagens instantâneas, mensagens privadas, envio/up load de fotos e vídeos, etc)


Tópico 2 – Uma história dos Sites de Redes Sociais:
Muitas das redes sociais atuais não surgiram como tal. Muitas começaram como sites de comunidades virtuais, fóruns de discussão, provedores de blog, etc, alguns de maneira regionalizada, inclusive, e que depois transformaram-se em sites de redes sociais, mudando de feição e adaptando-se à medida que cresciam.

As autoras citam que o primeiro site que pode ser chamado de Rede Social é Sixdegrees.com, lançado em 1997, que naquela época já permitia a criação de perfis, a criação de listas de amigos e a navegação por listas de amigos. Segundo Boyd e Ellison, estas características já existiam em sites de relacionamento e comunidades virtuais, mas o Sixdegrees.com foi inovador aos reunir todas estas características num só “lugar”. Como não se tornou um negócio auto-sustentável, embora tenha atraído milhões de usuários, foi encerrado em 2000. Na opinião de A. Weinreich (2007), citado pelas autoras, o Sixdegrees.com estava à frente do seu tempo.

As autoras vão citando exemplos de SNSs surgidas entre 1997 e 2003, como o LiveJournal, o Cyworld, o MiGente, etc, que envolviam a criação de perfis e a articulação de amigos. A próxima “onda” nas Redes Sociais começaria em 2001, com o Ryze.com, que foi criado com o objetivo de ajudar pessoas a alavancar suas redes de negócios. Outras redes sociais surgiram nesta esteira, como o LinkdIn, Tribe.net, etc. Destes, somente o LinkedIn

Através de uma linha do tempo, as autoras apresentam os principais sites de redes sociais criados até 2006, e escolhem três deles (Friendster, MY Space e Facebook) como cases, por serem representativos no cenário de negócios, cultura e pesquisa.

Segundo Chafkin (2007), o Friendster foi uma das maiores desilusões/fracassos da história da internet. Criado em 2002 como um complemento do Ryse.com para promover encontros entre amigos de amigos, rapidamente se popularizou, mas começou a enfrentar problemas técnicos e sociais. Os servidores e bases de dados falhavam constantemente, frustrando os usuários.

Segundo Boyd, o crescimento geométrico também acarretou problemas sociais, como o fato dos usuários terem que encarar seus chefes e colegas antigos de escola ao lado de amigos mais íntimos, a criação e proliferação de perfis falsos – os fakes. A companhia decidiu baní-los, eliminando uma prática muito popular entre os usuários, que gostavam de visitar o “Fakesters” para se divertir ou encontrar usuários fingindo ser outra pessoa. O site também restringiu as atividades de usuários mais assíduos e apaixonados. A quebra de confiança entre usuários e site e os problemas citados geraram grande insatisfação e foram fatores para o enfraquecimento da rede social nos EUA. Curiosamente, o SNS é muito usado em países Asiáticos.

Em relação à trajetória do My Space, as autoras contam que os criadores da rede queriam atrair especialmente os usuários insatisfeitos do Friendster. Um dos que catapultaram ajudaram na popularização  do My Space foram bandas de Indie-rock, que incentivaram seus fãs a saírem o Friendster. As bandas foram bem-sucedidas no My Space. Elas usavam a rede para divulgar seus trabalhos e shows e para se conectar com os fãs.

O novo SNS se popularizou principalmente entre músicos e artistas, adolescentes e universitários. Ele se diferenciava de outras redes sociais por (1) adicionar características com base na demanda dos usuários e (2) permitir que eles personalizassem seus perfis. Depois de ter sido comprado pela News Corporation por U$ 580 milhões, a rede social foi envolvida em escândalos por conta de suspeita de interações sexuais entre adultos e menores de idade. Algumas pesquisas apontaram que, apesar do pânico moral e da repercussão das suspeitas, a preocupação foi exagerada.

Refletindo sobre redes sociais que se expandiram em nichos de comunidades e se tornaram sucesso de audiência, as autoras relatam o case do Facebook. Criado em 2004, inicialmente como uma rede da Universidade de Harvard, passou gradativamente a agregar usuários de outras faculdades, escolas e rede corporativas.

Diferente de outras redes, no Facebook os usuários (à época) não eram capazes de construir perfis completo visíveis a todos os usuários. Mas a rede social permitia que desenvolvedores externos construíssem aplicativos que os usuários adotavam para personalizar seus perfis e fazer tarefas, como comparar filmes.

As autoras compreendem as redes sociais como um fenômeno global, mas não explicam o porquê de determinadas redes fazerem sucesso em determinados lugares e nem tanto em outros, como é o caso do Orkut (que foi a principal rede social no Brasil durante algum tempo), mas teve recepção morna em outros países. Citam os exemplos de sucesso do Mixi no Japão, do Gono, na Polônia, e do Hi5 em alguns países da América Latina. 

As autoras também registram as reações de empresas e governos ao crescimento exponencial das redes sociais. Enquanto algumas empresas tem investido na criação, manutenção e divulgação em redes sociais, outras estão bloqueando o acesso de seus funcionários a este tipo de site. Frosch (2007) relata que o exercito americano, por exemplo, proibiu os soldados de entrarem no MySpace.

Segundo as autoras, a ascensão das redes sociais indica uma mudança na organização das comunidades on line. Elas são organizadas em torno das pessoas – são egocentradas; os indivíduos são o centro de sua rede social, de sua própria comunidade. Citando Wellman (1988), as autoras defendem que este modelo é mais apropriado para espelhar estruturas sociais não mediadas, onde “o mundo é composto por redes e não grupos”.


Tópico 3 – Conhecimento Anterior:
O objetivo desta parte do artigo é examinar pesquisas sobre as SNSs, identificando o estágio em que se encontram os estudos sobre o tema. As maior parte dos trabalhos gira em torno dos seguintes temas: (1) gerenciamento de impressões; (2) performance na manutenção de amizades; (3) redes e estrutura de redes; (4) conexões online e off-line; e (5) privacidade.

Segundo Boyd (2004), num texto anterior, os SNSs são um “locus” para articulação publica de redes redes sociais que permitem os usuários negociarem apresentações de si e conectarem-se com outras pessoas. Boyd e Donath (2004) sugerem que a exposição publica de conexões serve como um importante sinal identitário que ajuda as pessoas a navegarem no mundo das redes sociais e que uma lista extensa de amigos serve para validar as informações identitárias informadas nos perfis.

A partir da análise do fenômeno dos “fakesters”, Boyd argumenta que perfis em SNSs nunca pode ser totalmente verdadeiros ou  “reais”. Já Skog (2005) defende que o status influencia como as pessoas se comportam e o que elas escolhem revelar.

Refletindo sobre a performance friendship, Boyd (2006) acredita que o conceito de “ amigos” nas redes sociais é diferente do conceito no senso comum; a ferramenta “Friends” oferece uma audiência imaginada que guia normas de comportamento na rede. Outros estudos ainda dão conta do uso da ferramenta “testemunhal” como um instrumento de auto-apresentação ou analisam como a atratividade dos amigos provoca impressões.

Em relação à estrutura dos SNSs, os pesquisadores destacam a importancia das bases de dados para a viabilização da conexão entre amigos e a ampliação dos links de amizades. Kumar, Novak e Tomkis (2006) apontaram que numa rede social existem membros passivos, convidadores e linkadores, e eles contribuem para evolução social das redes.

A partir de pesquisa sobre o Orkut, Spetus, Sahami e Buyukkokten (2005) sugeriram que os SNSs podem usar a topologia de usuários para recomendar comunidade adicionais à quais se interessem. E Lui, Maes e Davenport (2006) defendem que não apenas as conexões com amigos deve ser a única estrutura de rede a ser investigada, mas também a performance de gosto (taste fabric).

Sobre a questão da relação de SNSs com redes sociais preexistentes, muito autores argumentam que as interações on line reforçam as conexões off line. Foi assim com o Facebook e com outras redes. Algumas pesquisas constataram que as SNSs são usadas principalmente para conectar pessoas que já se conhecem – e menos para conhecer ou interagir estranhos.  Isto reforça os laços pré-existentes fora da internet.

As pesquisas também têm apontado o uso das redes sociais no cotidiano das pessoas. Os usuários entram diariamente nas redes, incorporam o acesso aos SNSs às suas práticas cotidianas.

Sobre a questão da privacidade, outro tema que mobilizado uma parte das pesquisas, a suposta ameaça potencial das redes sociais à privacidade encontra defensores e pesquisadores contrários a esta tese. Acquisti e Gross (2006), por exemplo, acreditam que há uma desconexão entre o desejo dos estudantes de proteger a privacidade e seus comportamentos, já que eles fornecem informações pessoais perigosas em seus perfis. Muitos adolescentes não teriam consciência da natureza publica da internet, provocando o que se chamou de “paradoxo da privacidade” (Barners, 2006).

Uma outra corrente de pesquisadores acreditam que os jovens tem adotados medidas para diminuir o risco de exporem informações pessoais nas redes sociais, como por exemplo o uso de informações falsas, demonstrando preocupação com a privacidade. A questão é tão complexa que permeia o campo jurídico: a polícia pode ter acesso a informações em redes sociais sem mandado judicial para investigar suspeitas de crimes?


Tópico 4 – Visão Geral tema Especial da Seção:
Outras pesquisas interessantes estão em andamento, com base em variadas teorias e metodologias, tentando dar conta de como as experiências online e off-line estão cada vez mais entrelaçadas. Segundo as autoras, os trabalhos estão girando em torno de temas como a manutenção de relacionamentos, identidade, auto-apresentação, engajamento cívico, o uso educativo das redes sociais, etc. Elas citam os trabalhos que estão sendo desenvolvidos por pesquisadores como Kyung-Hee Kim e Haejin Yun, Dara Byrne, Patricia Lange e Hugo Liu, investidando redes como Cyworld, Black Planet e o My Space.

Tópico 5 – Pesquisas Futuras:
Refletindo sobre o andamento das pesquisas sobre redes sociais, as autoras reconhecem que ainda há muito que se avançar. À época, os estudiosos não tinha muita clareza de quem estava usando e não estava usando este tipo de site, e com que objetivo. Também não havia estudos experimentais ou de longo prazo que possibilitassem afirmações sobre causalidade de determinados fenômenos nos SNSs.

Elas esperam que as pesquisam que estão em andamento e que foram descritas no artigo produzido por elas ajude no desenvolvimento de futuras pesquisas sobre SNSs. 

domingo, 1 de abril de 2012

Questões desenvolvidas pelos alunos relacionadas aos textos

METTS, Sandra; GROHSKOPF, Erica. Impression Management: Goals, Strategies, and Skills. In GREENE, John O.; BURLESON, BRANT R. Handbook of Communication and Social Interaction Skills. Lawrence Erlbaum Associates, Publishers. London, 2003 (p. 357 - 399).

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> De que forma a teoria da polidez, explicitada por METTS e GROHSKOPF (2003), se reconfigura, a partir dos comportamentos e atitudes dos indivíduos, ao acessarem os sites de redes sociais?

> Ao mencionar, sobre o processo de gerenciamento de impressões, as estratégias de direcionamento do outro, como, por exemplo, as ações corretoras obrigatórias, as autoras explicitam que uma das formas de se fazer isso é induzir o embaraço intencional do interlocutor/interagente. Nesse sentido, questionamos: dadas as condições e características particulares dos ambientes digitais, esse tipo de ação corretora se faz viável, em interações mediadas por computador e síncronas?

> Pessoas com competência interpretativa elevada são consideradas por Metts e Grohskopf (citando Leary) como aquelas altamente atentas, motivadas e, portanto, hábeis em se antecipar às reações dos outros nas interações sociais. Contudo, no extremo do monitoramento de impressão, essas pessoas não poderiam levar muito em alta a impressão dos outros sobre elas de forma a afetar sua habilidade comunicativa? Como quando Schlenker fala dos problemas para a auto-apresentação em focar unicamente na aprovação e aceitação das audiências imediatas.

> Ao tratar das diferenças de gênero no gerenciamento de impressão, Metts e Grohskopf afirmam que as mulheres enfrentam um dilema mais agudo que os homens, uma vez que elas tendem a ser mais modestas em sua auto-apresentação e uma vez que se demonstram agressividade correm o risco de serem avaliadas de forma negativa. No entanto, a expectativa de que as mulheres sejam mais graciosas, modestas e sigam as normas de cortesia também não poderia ser uma vantagem para uma adesão a priori ao seu objetivo? Ou seja, uma eventual modéstia ou agressividade não poderia ser atenuada por esse (pre)conceito?

> É possível pensar em algum contexto social no qual os indivíduos envolvidos não estejam em algum nível de gerenciamento de impressão?

> Utilizando um exemplo real. No último dia 28 de março, a Rede Globo, através do Jornal Hoje, exibiu uma matéria na qual um pai obrigou seu filho a pedir desculpas publicamente por ofender uma professora em rede social da internet. O adolescente não gostou da tarefa da escola e publicou em sua página de relacionamento que queria colocar fogo na professora. Com a repercussão do caso, os pais e o referido adolescente foram chamados pela diretora do colégio para uma conversa. Todos pediram desculpas à professora, mas o pai avaliou que somente isto não era suficiente: fez o filho se desculpar publicamente – o pedido de perdão foi publicado na página dos classificados de um jornal da cidade. A matéria informa ainda que o pai do adolescente é empresário e não quis se identificar na entrevista que concedeu à equipe do telejornal. Mesmo com o reconhecimento de que havia ofendido a professora e publicado o pedido de desculpas no jornal impresso, o pai do adolescente fez o mesmo cancelar a sua conta na rede social. Diante do exposto, pode-se afirmar que todas as ações do pai pretenderam: a) restaurar a integridade da identidade perdida ou danificada; e/ou b) construir uma impressão atrelada à sua identidade pública; e/ou c) manter a integridade da identidade? Link da matéria mencionada: http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2012/03/pai-obriga-filho-pedir-desculpas-publicamente-por-ofender-professora.html

> Segundo Metts e Grohskopf, o "peso" de uma ameaça é determinado por contextos sociais (status, familiaridade entre os interlocutores etc.) e individuais (o poder que o falante exerce sobre o ouvinte). No caso dos perfis das redes sociais, onde a autoapresentação pressupõe o preenchimento de tópicos específicos como "quem sou eu", "filmes", "músicas" etc., como se configuram as ameaças? Elas são atenuadas ou, por outro lado, podem desmascarar mais facilmente determinada persona?

> No contexto da pergunta anterior, é possível observar como funciona a questão do "desmascaramento" nas redes sociais sob um espectro geral ou avaliações de casos isolados fornecem este panorama?

Questões desenvolvidas pelos alunos relacionadas ao texto:


SCHLENKER, Barry. Self-Presentation. In LEARY, Mark.; TANGNEY, June. Handbook of Self and Identity. The Guilford Press, New York, 2003 (p. 492 - 518).

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> O modelo Goals-Plan-Action defende a divisão entre dois tipos de metas, as primárias e as secundárias. Neste sentido, qual a articulação entre metas primárias e metas secundárias? De que maneira elas atuam no comportamento do indivíduo?

> O modo automático de autoapresentação (à Schlenker, p. 495) emerge com maior facilidade quando o indivíduo se encontra em condições habituais, com pessoas conhecidas ou desenvolvendo tarefas simples e triviais. "In such comfortable situations, automacity of self representation prevails, unless or until something happens that threatens the actor's image" (Schlenker, p. 495). Como esta afirmativa se articula com o conceito de FTA (face threatening acts) trazido por Metts e Grohskopf?

> Até que ponto a persuasão deve ser utilizada, uma vez que estamos sujeitos a um olhar mais apurado do outro?

> As técnicas devem ser utilizadas para ajudam a "melhorar" nossas habilidades ou para construir um "novo eu", mais "aceito" e mais propenso ao sucesso?

> No texto Self-Presentation, Schlenker demonstra o poder das audiências (reias ou imaginárias) para influenciar o que as pessoas pensam de si e como se apresentam. Contemporizando o contexto, o que se tem mais em conta para um comportamento: a audiência-interlocutora imediata da comunicação ou a audiência-anônima também parte da comunicação e também capaz de gerar recompensas? Qual o impacto para a self-presentation quando se alteram os padrões de comunicação de um-a-um para um-a-muitos ou para muitos-a-muitos?

> Em que medida os objetivos (goals), considerados por Metts e Grohskopf como fundamentais para o impulso do planejamento e que, por sua vez, tornam a ação possível, são tão conscientes para os envolvidos na interação social? Fazendo um link com os processos automáticos da self-presentation, não podemos agir intencionalmente para um objetivo mesmo não estando totalmente conscientes desse objetivo?

> Encenamos para que os outros nós vejam como gostariamos de ser?

> Somos representações de um "eu" que não é exatamente o que somos?

> Schlenker afirma que a auto-apresentação pode ser um processo controlado ou automático, tendo em vista o nível de consciência e processos cognitivos envolvidos. Nesse sentido, ao transpormos a ideia de self-presentation para os ambientes digitais, tais como os sites de redes sociais, em geral, estaríamos diante de apenas um desses processos - a auto-apresentação controlada? De que forma a auto-apresentação automática se manifestaria, nos sites de redes sociais?

> De acordo com o autor, não existe uma constância, nem linearidade no estabelecimento de uma determinada imagem do self, já que inúmeros fatores modificam a auto-apresentação, para que esta se adeque ao contexto em questão. Nesse sentido, questionamos: Não há uma tendência, nos ambientes digitais, de buscarmos uma espécie de unicidade e integração do processo de self-presentation? Ou seja, os indivíduos não tendem a se comportar de uma maneira similar, independentemente do ambiente - twitter, facebook etc - em que estejam inseridos?

> Diante de um cenário em que as pessoas buscam gerenciar impressões a todo custo, está se estabelecendo uma cultura do parecer autêntico? A autenticidade passou a ser mais valorizada como característica?

> Além da necessidade de coerência entre o virtual e real, também não está surgindo a necessidade de coerência nos diferentes ambientes reais, diante da vigilãncia imposta pelos dispositivos eletrônicos cada vez mais acessíveis e populares?

> O gerenciamento de impressões nas redes sociais online tem criado um cenário de apresentações cada vez mais racionais e menos susceptíveis a tons emocionais? A liberdade de revelar e extravasar emoções está mais restrita?

> Com uma preocupação cada vez maior com o gerenciamento de impressões, as redes sociais online tendem a se tornar um espaço mais de autopromoção do que de uma conversação mais orgânica?

> Aplicando às redes sociais, o gerenciamento de impressões repousaria na tentativa de controlar a reverberação de seu estar nesse espaço virtual – seja através de um avatar, um modo de agir e se expressar – de tal modo a legitimar seu lugar?

> O gerenciamento de impressões é, portanto, uma tentativa de o indivíduo legitimar sua participação em determinado espaço, físico ou virtual?

> No texto, Schlenker fala que na self-presentation há os “jogos humanos” - um (self) busca convencer o outro (self) sobre suas imagens. No entanto, segundo o autor, o que, realmente, está em jogo não é algo enganoso ou manipulador. E sim mostrar ao outro algo que se acredita ser seu verdadeiro. O autor fala ainda que diferentes estratégias de auto-apresentação estão relacionadas com diferentes tipos de audiências. E mais. Quando o autor distingue o self-expression do self-presentation ele afirma que a primeira é autêntica, espontânea e é própria do ator. Já a segunda é elaborada e influenciada por pressões sociais fora do ator. Mas, Schlenker afirma que a self-presentation não é consciente e se divide em automática e controlada. Essa separação de “self´s” sustenta-se na(s) rede(s) social(is)? Como se dá a atitude do indivíduo dentre da(s) rede(s) social(is): ele mantém o mesmo perfil do “real”; há um perfil do “real” diferente do perfil do “virtual”?

> Conforme dito no texto Impression Management: Goal, Strategies, And Skills, ao expandir a noção de “Face” de Goffmans, com a Politeness Theory, Brown and Levinson (1987) argüiram que o “Face” seria motivado por duas fundamentais necessidades humanas: “autonomia” e “validação”.

Tais necessidades seriam representadas como “Negative Face” e “Positive Face”. O fato de o “Negative Face” funcionar como uma espécie de desejo individual de ser autônomo, livre de imposições ou restrições, controlar o seu próprio território, posses, tempos, espaço e recursos, não o invalida diante de uma perspectiva interacionista?

> Abordando sobre os problemas da “auto-apresentação”, Schlenker nos lembra que os mesmos podem trazer riscos à saúde. Ele também afirmar que o public self opera transformações no private-self. O filme Beleza Americana (1999) mostra vários personagens se auto-apresentando de modo antagônico aos seus verdadeiros anseios ou realidades. Essa vontade de querer negar a sua própria condição, se apresentando como o seu contrário para se mostrar como superior, seria uma patologia do self?

> Com base nas pesquisas apontadas pelo autor, é correto considerar que o processo de auto-apresentação é exclusivamente consciente?

> Estímulos cognitivos variadas e simultaneos tendem a interferir nos processos de auto-apresentação. A partir do texto, reflita sobre esta afirmação.

> A partir das perspectivas da Análise do Discurso e da Retórica, seria possível associar o Self ao Ethos, que é entendido como o "caráter do orador"?

> O Gerenciamento de Impressões, na mesma perspectiva e também remetendo a retórica aristotélica, pode estar relacionado com o Pathos (ou o que Charaudeau chama de "efeitos pantêmicos") e que é aquilo que orador desperta na platéia? O Pathos seria, portanto, uma das formas de manifestar (ou o resultado da manifestação) do Self público?





Fichamento - Autoapresentação e Gerenciamento de impressões [texto 2]

METTS, Sandra; GROHSKOPF, Erica. Impression Management: Goals, Strategies, and Skills. In GREENE, John O.; BURLESON, BRANT R. Handbook of Communication and Social Interaction Skills. Lawrence Erlbaum Associates, Publishers. London, 2003 (p. 357 - 399).

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Por Flora Couto e Samantha Rebelo

Sobre as autoras:

Ph.D SANDRA METTS
Professor na Illinois State University. Seu foco de estudo são as relações interpessoais e a comunicação social. Inclui a decepção nos relacionamentos mais próximos, comunicação social e Facework, definido pela Ph.D como a Identidade Social construída pelas pessoas, durante as interações sociais.

Ms. ERICA GROHSPOF
Mestre pela Illinois State University, em 2000. Trabalha na iniciativa privada, na Epic System Corporation.

Objetivos do capítulo:

O propósito do capítulo é estudar habilidades humanas envolvidas no Gerenciamento de Impressões nas relações interpessoais. Considera-se que o ser humano é avaliado minuciosamente e rotulado, pelos seus pares, através de ações verbais e não verbais e o nível de sua consciência sobre isto altera seu comportamento social, construindo ou desconstruindo objetivos de impressão, detalhados na obra.
 O texto objetiva incitar o debate sobre objetivos de imagem gerados, estratégias e classificação, discorrendo sobre o assunto e apresentando o pensamento de alguns autores sobre a temática, como Bolino (1999), Ralson e Kiskwood (1996), Jones (1964), Jones e Pittman (1982). Boa parte destes pensamentos são resultados de pesquisas empíricas com amostras, em relações genéricas, e no ambiente de trabalho, como em entrevistas para emprego.

Argumentação Central:
A consciência das pessoas sobre as impressões que seu comportamento constrói sua imagem social, em seus relacionamentos, e o efeito desta consciência no auto-gerenciamento de impressões. As habilidades de gerenciar corretamente estas impressões favorecem nossas interações, afiliações sociais, inserção e desenvolvimento profissional. O termo gerenciamento de impressão vem associado à produção de coerência comportamental que faça o outro inferir sobre quem nós somos. As apresentações de si mesmo, mais ou menos intencionadas, podem facilitar a realização dos objetivos de impressão que geraram estas estratégias de apresentações, garantindo benefícios ou evitando perdas.


Tópico 1 –  Gerenciamento de impressões: mapeando os conceitos
Quais são os objetivos que podem ser identificados de diferentes tipos de apresentações pessoais? O texto traz algumas reflexões de outros autores.
Dois autores, Jones e Pittman (1982) tentam classificar as apresentações pessoais, de acordo com tais objetivos em cinco categorias que são associadas às estratégias para transmitir o que as pessoas querem passar nas suas apresentações pessoais – como querem ser vistas, sendo que estes comportamentos condizentes com tais estratégias têm sido observados no ambiente de trabalho.
- A primeira estratégia: integração. Usada por quem quer se associar, integrar algo – Exemplo: falar o que sabe e/ou o que imagina, que o outro vai gostar de ouvir
- Segunda estratégia: self-promotion (se promover). Para quem quer passar a ideia de ser competente, por exemplo.
- Terceira estratégia: exemplificação – exemplification. Esta é para quem quer parecer digno, dá exemplos de situações em que o foi.
- Quarta: supplicaton - quem quer aparentar desamparado.
- Quinta: intimidação – quem quer aparentar ser perigoso e/ou poderoso

Ainda neste tópico, Metts e Grohskopf traz outro autor: Shutz (1998) mapeia duas estratégias para o alcance de suas metas considerando:
- a intenção ou o objetivo = querer parecer bem e tentar evitar parecer mal.
- estilo = assertivo ou agressivo.
É levantado o questionamento se características pessoais, ou patologias, como a depressão, influenciam nos tipos de objetivos escolhidos, já que identificaram várias personalidades e fatores associados à apresentação pessoal.
Uma terceira questão dos pesquisadores é se as escolhas para a apresentação pessoal, depois de um tempo, começa a influenciar na personalidade – as pessoas começam a acreditar que são aquilo que objetivaram aparentar ser. Assim, as estratégias de apresentação pessoal produzem uma atitude comportamental que influencia a identidade da pessoa, gerando novos objetivos de apresentações etc.
Também são apresentados, pelas autoras estudos que vêem o gerenciamento e estratégias de apresentações pessoais com decepção, por verem a utilização da manipulação (Schlenker, Weigold, Hallam 1990).

Tópico 2 – Identidade Social Situada - identidade para uma interação em particular.
O conceito de Identidade Social situada tem raiz na sociologia. Quando começou a ser utilizado no campo da Comunicação, o conceito passou a ter a nuance de “imagem” do self nas relações com as regras e responsabilidades disto.
As autoras apresentam duas teorias associadas à Identidade Social Situada A primeira de Goffman (1959, 1967); Face (alinhamento da Identidade Social) e Facework. A segunda é a Teoria da Polidez apresentada por Brown e Levinson (1978, 1987).
Goffman nomeia Identidades sociais como FACE e para este o importante não são as características de cada um, mas sim, os comportamentos regulares das pessoas como participantes da interação social. Fundamental é o alinhamento das identidades sociais. Goffman afirma que encontros são performances em que os atores sociais agem de acordo com suas identidades sociais específicas selecionadas para ocasião.
Performances são preparadas no backstage (em casa, por exemplo) e apresentadas em público. A Face é apenas um empréstimo que pode ser devolvida, trocada, de acordo com a situação social ou quando se age sem refletir sobre a performance.
Goffman notou que a pessoa pode estar fora de sua Identidade Social –, quando é incapaz de produzir sua Face, ou não quando não consegue encontrar a linha correta para sua atuação. Pode também usar a Face errada em uma situação, assim como ser descoberto usando uma Face inapropriada sem estar embasada em um discurso legítimo de quem realmente seja, gerando embaraço.
As estratégias de comunicação são denominadas por Goffman como FACEWORK mudam de acordo com a) sua posição naquele momento em determinada situação b) seu estilo. O autor apresenta cinco possibilidades:
Facework preventiva - Facework alterada antes de perder a Face;
Facework corretiva – usada quando perdemos a Face, ou utilizamos a errada;
Facework cooperativa - produzida de acordo com os outros, em consideração aos outros;
Facework agressiva - elaborada para engrandecer ou salvar sua Identidade Social, prejudicando a Face de outro.

Já a Teoria da Gentileza/cortesia/polidez, criada por Brown e Levison, estende o conceito de Face de Goffman, acrescentando que as preocupações da Face são motivadas por duas necessidades básicas do ser humano: autonomia e validação. Autonomia e validação são representadas como Face negativa e Face positiva, respectivamente. A negativa é o desejo de ser livre de imposições, tendo controle de seu território. A Positiva é o anseio de ser visto como detentor de qualidades para ter relacionamentos, ser incluído, inserido.
Brown e Levison trabalham também com a idéia dos atos da Face ameaçadora, chamada de FTAs, podendo ser positiva (lhe dou algo para depois você me retribuir, recompensar) ou negativa (através da ameaça).
Nesta Teoria se trabalha a idéia de que polidez e a ameaça estão profundamente presentes nos relacionamentos.

Tópico 3 – Objetivos do Gerenciamento de impressões
Os objetivos provocam planos, estratégias.
As autoras apresentam um modelo de objetivos-planos-ações (goals-plans-action) = GPA realizado por Dillard em 1998.
O GPA divide os objetivos em primários e secundários. Primários são os principais (os secundários podem ser objetivos menores gerados a partir dos primários, podendo ser artifícios para atingir os primários).
Este modelo apresenta quatro tipos principais de objetivos a) demonstrar competência social b) proteger a impressão de íntegro c) restaurar a impressão de íntegro d) construir uma impressão (para uma situação em específico).

Tópico 4 – Competência de interpretação – identificar características das situações sociais 
O maior objetivo do gerenciamento de impressão é ironicamente o objetivo de demonstrar que não faz gerenciamento de impressão. Este objetivo recebe o nome de demonstrate social competence.
Competência de interpretação também significa saber reconhecer o cenário e a impressão adequada que você deve passar para este. É importante ter um objetivo de impressão que quer passar – planejar como fará – perceber como os outros estão lhe percebendo.
Goffman (1967) utiliza o termo perceptiveness para descrever este tipo de consciência: se uma pessoa quer passar determinada impressão, tem que primeiro ter consciência de como isto vai ser visto, como aquele público percebe as situações e também reconhecer as reações da “platéia” diante da sua ação de construção, podendo consertar, redirecionar se o feedback não estiver sendo apropriado para a impressão que deseja que os outros tenham de si. Isto significa exercitar sua perceptividade.
Leary (1995) traz a reflexão sobre a Consciência de Impressão: se a pessoa não tem consciência de interpretação pode cometer gafes, se comportar inadequadamente. Quanto menos consciência, maior o risco de cometer estes erros.

4.1 - Neste tópico também é apresentada a estratégia de explorar convenções sociais.
 Muitas vezes, por convenção, fazemos solicitações que aparentam duvidar da habilidade do outro, mas que é apenas um pedido “você pode me passar o sal”?
Brown e Levinson (1987) usam o termo Conventional indirectness para se referirem ao discurso polido. Dizem que usamos indiretas convencionais para não aparentarmos ser rudes ou bruscos. Um exemplo é quando pedimos informações sobre uma localização e recebemos respostas longas como: “bem, a melhor forma de você ir para lá é ir em frente” e não apenas “vá em frente”.

Tópico Conclusão
O texto aborda vários aspectos do Gerenciamento de Impressão, detalhando objetivos, estratégias geradas para estes objetivos (planos) e as habilidades do indivíduo para lidar com a fomentação da auto-imagem, abordando alguns pilares diferenciais, como o gênero e nível de ansiedade.
 As pessoas diferem em suas consciências quanto ao que os outros pensam sobre si. Pessoas com baixa auto-estima não se mostram muito, não se vendem, em especial, se tem alguém com auto-estima maior se apresentando. Quem tem baixa auto-estima não tem ampla consciência da percepção dos outros sobre si. E tem um nível elevado de ansiedade social.
Quanto às diferenças no gerenciamento de impressões entre os sexos, os homens, no ambiente de trabalho, tendem a se auto-promoverem mais do que as mulheres. Estas, quando são gerentes, líderes, recebem mais pedidos de concessões, desculpas do que os homens, falam mais dos seus defeitos e tem maior dificuldade, no ambiente de trabalho, para gerenciar sua imagem.
O texto exemplifica bem seus conceitos com o trecho em que aborda como é comum as pessoas acordaram na segunda-feira e dizerem que estão cansadas de estarem fora de forma. No entanto, não estão acostumadas a dizerem que estão cansadas de serem vistas como menos capazes do que o que poderiam ser, com pouca competência para gerenciar técnicas de impressão, sendo que na realidade, em geral, o que incomoda não é estar fora de forma e sim serem avaliados como incapazes de se manterem dentro da forma física prevista e determinada tacitamente pela a sociedade.

Fichamento - Autoapresentação e Gerenciamento de impressões [texto 1]


SCHLENKER, Barry. Self-Presentation. In LEARY, Mark.; TANGNEY, June. Handbook of  Self and Identity. The Guilford Press, New York, 2003. (p. 492 - 518)

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Por Flora Couto e Samantha Rebelo

Sobre o autor:

SCHELERN, Barry R.: Professor Emérito do departamento de psicologia da Universidade de Gainesville na Flórida. Fellow de diversas associações e institutos como o American Psychological Association (Divisions 3, 8, and 9); Association for Psychological Science; Society for Personality and Social Psychology. Revisor, Consultor editorial em diversas revistas e jornais científicos, dentre eles: Psychological Review; Psychological Bulletin; American Psychologist; Journal of Personality and Social Psychology: Interpersonal Relations and Group Processes. Leciona e pesquisa as linha de interesse: Gerenciamento de impressão e auto-apresentação; Identidade Moral e integridade; Self e identidade; Responsabilidade pessoal e influência social; Poder e Persuasão. Autor e co-autor de diversos livros: Schlenker, B. R. (1976). Social psychology and science: Another look. Personality and Social Psychology Bulletin, 2, 384-390 - Schlenker, B. R. (1975). Self-presentation: Managing the impression of consistency when reality interferes with self-enhancement.Homepage: http://www.psych.ufl.edu/~schlenkr/vita.htm e-mail: schlenkr@ufl.edu

Objetivos do capítulo:  O presente texto apresenta resultados de pesquisas em psicologia social, clínica, sociologia e áreas afins ao longo de 25 anos; dentro do marco teórico do Interacionismo Simbólico - que buscam explorar o tema do gerenciamento de impressão e auto apresentação. A intenção do autor é revisitar os principais constructos que sustentam a teorização em torno do gerenciamento por controle das informações, no sentido de manejar as impressões que emergem nas negociações simbólicas interpessoais e grupais. O autor delimita conceitualmente a auto-apresentação, quando o gerenciamento feito por um locutor, tem como intuito persuadir o interlocutor a formar uma representação identitária desse locutor; que seja a mais próxima de sua intencionalidade, imediata ou antecipadamente planejada. O autor desenvolve a conceituação  da auto-apresentação como um comportamento social, complexo, autômato e controlado, consciente e inconsciente, verbais e não-verbais, operando em devir na construção do entre das relações eu - outro social; e, dessa forma, mediado pela ambiência sócio – cultural - histórica. Para delimitar o constructo, o autor,  circunscreve suas intuições teóricas em torno das variáveis intervenientes Situação, Aspectos do self, Público; dentro de uma perspectiva de atributos individuais e do aspecto transacional na construção e função dos significantes identitários  na expressão da auto-apresentação. O autor marca Erving Goffman, como um dos mais renomados pesquiadores da área; e dentro da sua vasta contribuição,  está o livro ‘The presentention of self in everyday life (1959).

Argumentação Central: O que são e para que servem as auto-apresentações? Em nome de responder a essa pergunta, o autor centra seu argumento em torno da explicação, via teoria do Interacionismo Simbólico, de como se processa a ancoragem do Self nas interrelações sociais imediatas e planejadas, reais ou antecipatórias. As pesquisas levantadas pelo autor argumentam que o Self é um ente construído socialmente nas interrelações continuadas, cujo processo de formação é a mediação cognitiva. Cognição, sendo aqui entendido como esquemas conceituais de orientação interna que se auto- regulam continuadamente, via percepção seletiva de estímulos sensórios; que são guiados pela intencionalidade consciente ou inconsciente, controlados ou autômatos dirigidos para configuração de auto-conceitos, auto-imagens, crenças. Essas configurações de esquemas são definidores da percepção de si mesmo no mundo, do Self, dos outros sociais, e de um público em geral. Os estímulos perceptuais selecionados são entendidos pelos Interacionistas Simbólicos, como informações carreadas de signos, significados, significantes mutuamente compartilhados em sociedade; que são permanentemente negociados simbolicamente, para manutenção do enlaçamento social e construção de processos identitários, os mais genuínos, criativos e adaptativos, que se equiparem à imagem do Self preferencial. A chave da argumentação é que esse fenômeno, pregnante no entre das relações, pode ser gerenciado em suas cadeias de concatenações simbólicas, para gestar as impressões que um Self deseja associar a sua imagem identitária em um dado contexto, com um dado público: a esse comportamento social é dado o nome auto-apresentação.

Tópico 1 – Artimanhas e autenticidade: O autor inicia sua aproximação na conceituação do tema tentando levantar e distinguir as percepções mais restritivas e abrangentes sobre auto-apresentações; delimitando dois eixos centrais quanto as percepções de uso ou função: 1. a percepção de que a auto-apresentação pode ser erradamente vista, restritivamente, como um recurso de ‘artimanhas’, no uso do jogo social (ex. políticos,  vendas, ascensão social, crimes), cuja a função seria uma atividade superficial, fortuita, enganadora, decepcionante ou manipulativa; 2.  também envolve uma percepção de que a auto-apresentação tem a função de comunicar a um público um perfil de alguém, genuinamente autêntico, crível pela pessoa que age, como verdadeiro -  e que pode ser usada para realizar objetivos interpessoais, apenas influenciando as respostas dos outros para si. Seguindo a reflexão, o autor aponta que as auto-apresentações são de ordens diferentes, que co - existem;  mas não se excluem, nem preponderam umas sobre as outras. O autor continua explorando que mesmo com usos e funções diferentes, as pesquisas apontam que o processo de formação da auto-apresentação requer o mesmo objetivo genérico: o objetivo de ser incluso socialmente, gratificar e ser gratificado psicologicamente e materialmente; construir e assegurar uma identidade pública preferencial, dentre outros ganhos na relação interpessoal. Segundo Schlenker (2003) Interacionistas simbólicos como Mead(1934) e Cooley(1902) estão entre os primeiros a enfatizar que ações carregam significados simbólicos que influenciam as respostas dos outros ao self. O autor levanta várias pesquisas de teóricos do Interacionismo Simbólico que apontam que as negociações simbólicas podem ser reais ou antecipatórias a um dado encontro social; e são influenciadas por diversos motivos desde poder, vínculo, atenção, controle, tempo, forma, que impactam o conteúdo da atividade das auto-apresentação. Segundo Schlenker (2003), Goffman(1959) elaborou o tema quando ele descreveu a vida social como sendo uma série de atos nos quais a pessoa projeta suas identidades ou “faces” para os outros e se engatam em atividades mútuas que são governadas pelas regras sociais e rituais. Para o autor, esse processo de construção de um self identitário, nos engates dos encontros com os outros sociais, nas auto-apresentações, sempre ocorrem; mesmo que para isso os fins sejam um self enganoso(artimanhas) ou um self genuíno(autenticidade).

Tópico 2 – Processos autômatos e controlados na auto-apresentação: Segundo Schlenker(2003) a auto-apresentação, como todo comportamento social, pode variar em um contínuo de expressão de um comportamento automático à processos controlados de acordo com o espectro de consciência e processos cognitivos envolvidos. Para o autor, o processo automatizados ou autômato, são hábitos que operam fora da consciência, são involuntários – sem percepção de sua intencionalidade, fluxo, impacto da atividade da auto-apresentação - e pouco esforço cognitivo, e não são conscientemente controlados depois de iniciados. Dessa forma, os processos controlados, em polaridade, são voluntários, conscientes, permeados por processos cognitivos intencionalmente motivados e dirigidos para  meta - ou quando está diante de determinados tipos de audiências que sejam significantes para o self; na intencionalidade de obter controle sobre as impressões que se deseja impactar no público. Os processos automáticos nas auto-apresentações ocorrem em atividades que envolvem motivacões familiares, rotinas, scripts ou comportamentos aprendidos e reforçados em que os laços sociais não oferecem ameaça ao seu processo identitário: por não apresentarem metas específicas ou por serem contextos conhecidos, dispensam controle e pouco envolvem processos conscientes já que não estimulam no ator uma preocupação maior em causar boa impressão. Segundo Schlenker(1980,1985); Schlenker,Britt & Pennington, 1996) estes sugerem que alguns padrões de forma de auto-apresentação roterizam o guia de ação, usualmente demaneira não pensada, em situações relevantes. Esses roteiros do self são incorporado sem um amplo roteiro cognitivo(Abelson, 1976) que ajuda pessoas a negociar situações sociais. Processos autômatos também podem ocorrer em resposta à uma  sobrecarga de informção circulante, ou pressão do momento,  interferindo com  processos coginitivos habituais - os scrippts sociais - que se tornam disfuncionais e disparam comportamentos inconsciente, novos roteiros; por características específicas do público e da situação, e onde o sujeito parece não dimensionar a extensão que o tal comportamento é influenciado pelo tal contexto social e suas próprias metas interpessoais (Jones, 1990; Schlenker, 1980, 1985; Tetlock 7 Manstead, 1987). Ou seja, mesmo operando no modo autômato, não existe um self-consciente atento ao controle de impressão feita em resposta aos outros; pórem,  há uma atividade objetivada de contruir e proteger uma identidade que se estabelece diante de um contexto, situação e audiência.

Tópico 3 – Configurando a auto-apresentação - desenhando uma auto-apresentação desejada a partir do Self, Público e Situação: o autor circuncreve a configuração da auto-apresentação mediada por um engendramento transacional de informações oriundas de 3 eixos que são eles a audiência, da situação específica, e dos aspectos do self (traços da personalidade, recursos mnêmonicos da história do sujeito e de personalidades de referências arquetípicas); dentro uma intencionalidade das metas e dos dimensionamentos do grau de relevância(razão, tamanho) dos contextos envolvidos.  Para construir comportamentos identitários desejáveis a partir desses eixos, o autor revisa pesquisas que apontam objetos transicionais que encorpam, dão sentido e são facilitdores dessa construção: a. o reforçamento da auto-estima, como fator de ancoramento de uma auto-imagem positiva e socialmente desejada; b. o reforçamento da consistência interna do Self, confirmando crenças de si mesmo que sustentam a face identitária do sujeito; c. organizar alvos, metas e motivações que intencionem comportamentos da audiência e do self do sujeito; que representem consequência benéfica, acreditavéis, e com credibilidade (para não haja sofrimento de sanções pessoais e interpessoais de forma que o indivíduo busque apresentar informações de si que seja capaz de manter a integridade identitária). Então parece não existir constância nem linearidade no estabelecimento de uma imagem particular do Self;  já que inúmeros são os fatores que modificam a auto-apresentação para que se torne apropriada conforme o contexto. Diante dessa impermanência, inconstância, e mútua interferência do tripé Self – audiência – contexto; podemos pensar que o intercâmbio entre as experiências privadas e públicas, de caráter representativo para o Self, pode cumprir uma função de troca simbólica com rede de afetação passível de ressignificação dos esquemas cognitivo de referência interna e externa do sujeito. Nesse sentido, o autor defende a teoria de que o Self  parece se auto-regular nas fronteiras de contato com esses eixos acima tipificados, de maneira a se colocar no lugar do outro, empatizar, perceber os sinais que sejam frutos de um encontro real, no ato de construção imediata; ou de modo antecipado( antes da auto-apresentação se operar no encontro com os outros sociais). Para Schlenker (2003) a auto-regulação nas auto-apresentação são guiada em parte pela pressão das audiências e contextos sociais (orientações extrínsecas) e por outra, pelo valores e crenças do indivíduo (orientações intrínsecas); podendo ocorrer, ambas, concomitantemente, sem uma sobrepor a outra e trazendo rede de impacto caso se polarizem. As orientações extrínsecas e intrínsecas estão vinculadas, respectivamente, a autoconsciência pública e/ou privada que o indivíduo apresenta e, independente de qual seja, as audiências irão influenciar na auto-apresentação deste por razões distintas. Essas impactações podem também surgir de situações em que as pessoas se encontram com suas identidades ameaçadas por razão de um erro ou incidente, não previsto em suas auto-apresentações. Como consequência são disparados novos rearranjos na tentativa do Self de buscar remediar a imagem identitária ameaçada através de estratégias de evitação de responsabilidade, defesa da inocência, desculpas e justificativas. Schlenker (2003) a eficácia da auto-apresentação irá depender de quão esses eixos estão alinhados e acessam relações benéficas: que mantenham o bem-estar das relações interpessoais, sustentadas em imagens e condutas não enganosas; em situações de segurança; sem ameaças simbólicas à desconstrução ou desorganização da constelação identitária preferencial do Self. O autor salienta uma função benéfica e social das auto-apresentações, quando esta media a aliança de cuidado entre pessoas ou grupos sociais com metas comuns, proximidade, e representatividade simbólica; via construção e proteção recíproca de suas imagens identitárias. Schlenker(2003) Goffman (1967) postula duas regras necessárias para esse fim: o auto-respeito (integridade da pessoa com ela mesma) e a consideração (integridade da pessoa com o outro).

Tópico 5 - Implicações Teóricas: O levantamento bibliográfico indicou um campo de pesquisa vasto e com uma amplitude de implicações dos resultados. Segundo Schlenker (2003), o pesquisador Jones(1964), descreveu a auto-apresentação como uma das 4 táticas de integração - em conjunto com lisonja, conformação de opinião, execução de favores - que mais eficientemente eliciam respostas de atos de amor disparadas pelo poder dos outros. Através da revisão prospectada sobre o gerenciamento de impressão, via auto-apresentação, é possível perceber que os resultados apontados possuem um potencial de transversalidade nas diversas áreas do conhecimento que tenham a produção de subjetividade e grupos sociais como objetos de pesquisa e de aplicabilidade profissional.  Apenas como exemplo simplório, podemos ver a aplicação conceitual na área de educação, gerenciando as impressões, via auto-apresentação nas relações professor – aluno.

Tópico 6 - Limitações e Direcionamentos Futuros: para Schlenker (2003) a pesquisa em auto-apresentação produziu muita informação, mas gerou probabilidades de futuros desdobramentos de pesquisa, dado ser o fenômeno uma complexidade com muitas interconexões de campos de saber. Essa mesma complexidade do objeto de estudo pode apontar limitações quanto à delimitação dos procedimentos científicos,  condicionando a intuição teóricas a reduzida possibilidade de generalizações; se principalmente pensarmos em ambiências transculturais. Segundo Schlenker (2003) a auto-apresentação como tema científico por muito tempo ficou com o uso restrito, que é focado na manipulação, em um lado ilícito da auto-apresentação; mas que o objetivo singular da mente que é ser gostado, é ainda o caminho que os pesquisadores  devem focar o termo para futuras pesquisas. Hoje, então, pesquisar em auto-apresentação cobre muito mais. Auto-apresentação tem emergido como um importante e funcional conceito em psicologia social; e parece ser possível problematizar se elas poderiam ser indicadores dos sentidos de pertença nos agrupamentos sociais, e ferramenta de promoção de diversidade criativa na vida cultural de uma sociedade.

Tópico 7 - Conclusão: O autor pontua que a auto-apresentação é um comportamento social, que ao ser instrumentalizado de forma consciente, pode servir a uma ferramenta para a interação social benéfica - que ajudam os outros a construir e proteger suas identidades desejadas – e um recurso reflexivo para uma atitude crítica, quando envolve atividades manipuladoras, egoístas, destinadas a explorar outros. Nesse sentido a negociação simbólica, mediada cognitivamente, emocionalmente, sensoriamente dentro dos grupos sociais, exige uma noção de self individual indissociável do interrelacional. Assim, o conceito de auto- apresentação, ganha uma dimensão importante - estando em perspectiva individual e/ou transacional, e sendo um comportamento social - na função processual de organização das metas interpessoais, e no estabelecimento de roteiros identitários; oriundos de aporte sócio-culturais expressos em seus rituais e pactos de consenso de convivialidade. Podemos então concluir, que as pesquisas sobre auto-apresentação apontam para esta ser um constructo de grande relevância para compreensão do fenômeno subjetivo, da comunicação social e dos comportamentos sociais como um todo.